Tokyo!

As metáforas de Tóquio

Por Fabricio Duque

“Tokyo!” representa uma trilogia de metáforas que acontecem na cidade neon. As fragilidades desta cidade estão à prova. O olhar observador de três diretores famosos explorou esse universo. Não só do lugar, mas também de quem vive. As próprias. Uma sociedade só se faz com pessoas e o objetivo dos três curtas de 35 minutos cada é mostrar o avesso do que é considerado ‘normal’. Filme em três episódios. Em Design de Interiores, um jovem casal se muda para Tóquio, e enquanto ele tenta se tornar cineasta, ela se distancia do namorado, até descobrir uma estranha transformação em seu corpo. Já em Merda, um misterioso homem, chamado pela mídia de “criatura dos esgotos”, espalha confusão nas ruas de Tóquio com seu comportamento destrutivo, até ser preso e julgado. Em Sacudindo Tóquio, um jovem vive isolado por mais de dez anos em seu apartamento, sem qualquer contato com o mundo. Durante um terremoto, uma entregadora de pizza desmaia em sua porta, e ele acaba se apaixonando.

Em “Design de Interiores (Interior Design)”, de Michel Gondry é a metáfora do vazio e da acomodação. A fantasia confrontada pela realidade da maturidade de se saber o que é e o que quer. Necessita-se crescer. Versa sobre as idiossincrasias de um jovem casal de namorados. O namorado, cineasta, cria histórias fantasiosas com idéias não convencionais nos seus filmes e no próprio relacionamento. Tokyo sufoca. Há caixas por todos os lados. A fotografia ressalta um filme sensível sem ser piegas. Ser algo é necessário no mundo de hoje. O vazio existe. Precisa explodir. Nem que seja ficar parado.

Em “Merda (Merde)”, de Leos Carax, a metáfora dos marginalizados pela sociedade. Repleta de referências a filmes e histórias, como o Grinch de Natal. É só prestar atenção. O filme explora o lado negro do ser humano. O lado egoísta. Cada vez ficando mais exacerbado. Os excluídos precisam de auto afirmação. Pode ser por vandalismo, inconveniência com o outro e ou por terrorismo, criando a própria guerra. Com as próprias mãos. A exclusão social para existir depende de quanto dinheiro e poder existe na questão. O roteiro critica tudo que é social: a religião, a falta de sentimentos – percebida numa cena sútil, que chega a ser quase surreal -, aos americanos e aos próprios japoneses – que não entendem nada, precisando de um francês para salvá-los. O excluído é invisível. É muito difícil matá-lo, pois ele já está morto.

Em “Sacudindo Tokyo (Shaking Tokyo)”, de Bong Joon-Ho representa a metáfora da solidão. A reclusão já é uma patologia social. Chamados de Hikikomori. Pessoas que vivem anos sem sair de suas casas. O medo ao próximo existe. E o outro tem medo do outro. Convivendo apenas com o próprio ser, manias e transtornos repetitivos são criados. Harmônicos e sem surpresas. O pavor da exposição, por achar que somos avaliados e julgados a todo tempo, intensifica o desejo de se deixar e não viver o que se é. Até que algo acontece. A referência clássica é a Caverna de Platão. Os cubículos lares.

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    Gostei muito dos episódios…
    E com as tuas análises, faz muito mais sentido!!!!

    Princpalmente quanto ao 2º episódio, não sabia muito o que pensar, mas vc iluminou tudo aqui.. adorei a tua interpretação…perfeita!

    No 1º episódio, teve uma cena que me lembrou o Truffault… a cena dos empacotadores, que a guria faz um gato/cachorro… lembrei de um dos filmes do Antoine Doinel, qdo ele era detetive e se fingia de empacotador na loja de sapatos…rs

    O 3º episódio tb achei mto bacana…e a parte q ele vaga sozinho, lembrei um pouco do Ensaio Sobre a Cegueira…será q é mto viagem minha? rs
    E legal q esse episódio é do mesmo cara que fez o Mother (q eu não curti), mas esse eu achei bem bacana, vou ver se vejo outros filmes do cara…

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