Crítica: Suprema

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Imperfeito, porém importante

Por Pedro Guedes


Quisera o destino que eu assistisse a “Suprema” na manhã do Dia Internacional da Mulher – e o acaso não poderia ter sido mais revelador, já que o filme gira em torno de uma figura importantíssima na luta pelos direitos das mulheres e que, não por coincidência, inspirou um recente (e eficaz) documentário que recebeu não uma, mas duas indicações ao Oscar deste ano. Estou falando, claro, de Ruth Bader Ginsburg, uma advogada que firmou seus pés na batalha pela igualdade de gênero e que alcançou o status de juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos. Ver este filme naquela manhã, portanto, foi simbólico – e se somarmos isto ao fato de “Capitã Marvel” ter sido lançado na mesma semana, a relação torna-se ainda mais notável.

Condensando uma narrativa que durou cerca de 20 anos em apenas duas horas de projeção, “Suprema” tem início mostrando a jovem Ruth no início do curso de Direito, em Harvard, e namorando o veterano Martin Ginsburg. Com o passar dos anos, os jovens saem da faculdade, se casam e geram dois filhos – uma mais velha e um mais novo –, acompanhando, ao mesmo tempo, as mudanças que começam a acontecer na sociedade e na forma como esta tende a encarar as mulheres. A partir daí, o longa enfoca o caso (fiscal) de Charles E. Moritz contra o Comissário da Receita Federal, no qual Ruth encontrou espaço para que Ruth pudesse falar a respeito de como as mulheres não estão representadas e como a hegemonia dos homens brancos tende a estimular preconceitos baseados em sexo e/ou gênero (não é à toa que o título original do filme é “On the Basis of Sex” – ou seja: “Na Base do Sexo”).

Como dá para perceber, “Suprema” conta uma história importante por si só, o que permite que o filme seja apontado, no mínimo, como uma obra bem intencionada. Nada mais justo, portanto, do que conferir a cadeira de direção a uma mulher, já que a visão de um homem certamente não faria o menor sentido em uma narrativa como esta – e a cineasta chamada para o projeto é Miriam Leder, que, vale apontar, foi a primeira mulher a se formar no Conservatório do American Film Institute. A decisão de priorizar um olhar feminino ao contar uma história essencialmente feminina faz toda a diferença, pois há um grau de intimidade inquestionável quando uma pessoa encontra um local de fala ao abordar determinado tema.

De um ponto de vista puramente formal, no entanto, o trabalho de Leder decepciona ao investir em planos/contraplanos básicos que levam o resultado a soar mais como uma produção televisiva do que como um longa feito para ser exibido em tela grande, consolidando o filme como uma experiência esteticamente frágil e pouco imaginativa. Para piorar, a diretora não consegue restringir às armadilhas que boa parte das cinebiografias costuma oferecer: os momentos mais importantes da jornada de Ruth são enfocados a partir de ângulos inclinados (e heroicos), acompanhados por trilhas musicais notavelmente grandiosas e executados de maneira excessivamente artificial – e essa artificialidade pode ter a ver com o fato de que, embora dirigido por uma mulher, o roteiro foi escrito por um homem (Daniel Stiepleman) que talvez não entenda a forma como essas conquistas soam na prática.

Em contrapartida, a atuação de Felicity Jones consegue elevar o resultado final: mantendo uma postura física que convence como uma representação fiel à imagem da verdadeira Ruth Bader Ginsburg, a atriz se sai bem ao retratar todas as etapas do arco da protagonista, começando pela consciência de que está presa a uma cultura que a enxerga como um ser menos capacitado que os homens, prosseguindo pela insatisfação que surge em função disso e culminando na necessidade que sente de tomar uma atitude drástica – o que se torna ainda mais interessante (e complexo) graças ao contraste que é criado com a filha de Ruth, que acredita que as decisões tomadas pela mãe são inofensivas demais e que poderiam ser alçadas a um patamar ainda mais poderoso.

Beneficiado também pela performance de Armie Hammer, que encarna Martin Ginsburg como uma figura constantemente disposta a apoiar a causa da protagonista, “Suprema” não é uma obra particularmente brilhante, mas é bem-sucedido ao mostrar pro público o quão importante foi a presença de Ruth Bader Ginsburg no cenário jurídico e sociocultural dos Estados Unidos.

 

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