Aceitar a condição do herói nosso de cada dia

Por Fabricio Duque


Baseado no livro “About a Button and Hapiness”, de Jasminka Petrovic, “Shade – Entre Bruxas e Heróis”, dirigido pelo sérvio Rasko Miljkovic, estreante em um longa-metragem, é sobre o “nó da vida” em que um micro empurrão pode estimular toda uma mudança. O filme aborda o crescimento de um pré-adolescente que nasceu com paralisia cerebral parcial e que, pela chegada de uma nova aluna na escola, sua rotina entra em desequilíbrio. A teoria do Caos nos ensina que para se transformar é preciso a crise, o confronto e o choque.

“Shade – Entre Bruxas e Heróis” é a jornada deste protagonista. Uma viagem à aceitação da própria condição. Que se antes a força vinha da fértil e defensiva imaginação e da fantasiosa projeção da perfeição em sonhos, agora a vida é sentida em toda sua vitalidade, o fazendo embarcar e aventuras e transmutações. De bruxas maléficas dos contos de fadas a personificações reais das metáforas acreditadas.

A narrativa conduz o público a um universo sutil do entender o que se é e não ter vergonha disso. Ninguém é perfeito, mas alguns trazem limitações e diferenças aparentes (e diferentes do padrão visual que a sociedade construiu e segue como regra absoluta) nas deficiências físicas. O espectador pode criar paralelos cinematográficos por semelhantes temáticas e pela desenvoltura de seu roteiro, que infere de “Extraordinário”, de Stephen Chbosky; “A Teoria de Tudo”, de James Marsh, até chegar ao documentário brasileiro “Meu Nome é Daniel”, de Daniel Gonçalves.

Quieto e tímido, o jovem Jovan (Mihajlo Milavic), de dez anos de idade, nasceu com uma leve paralisia cerebral e constantemente usa de sua imaginação para escapar da realidade na qual está inserido. Algo como “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze. Só que mais em ficcionais maquetes. Em sua mente ele é um poderoso super-herói que combate o crime de maneira corajosa e astuta, mas quando uma nova aluna se aproxima de Jovan querendo uma amizade real, ele precisará fazer novas escolhas.

“Shade – Entre Bruxas e Heróis” é uma obra de humanização, ainda que escolha não aprofundar emoções, optando pela tradução palatável destinado a toda família. Tenta-se um misto atmosférico de “As Vantagens de Ser Invisível”, de Stephen Chbosky, com aventura infanto-juvenil à moda de “Harry Potter”, de Chris Columbus; de “Detetives do Prédio Azul”, de André Pellenz; e ou de “Sabrina, Aprendiz de Feiticeira”.

O longa-metragem também questiona o conceito de herói e seus constantes e próximos inimigos. Jovan é “Shade”, luta diariamente para sobreviver em um mundo cruel e hostil, mas às vezes fica vulnerável. Às vezes encontra facilitadores, heróis solidários, como o fisioterapeuta. “Quero um novo corpo”, desespera-se. Nessa idade, período de transição de extremos, falta maturidade e sobra agressividade. Descobrir o meio termo da perspicácia e sagacidade, o segredo da existência. Cada um deles, Jovan e sua amiga Milica (Silma Mahmuti), aprendem a lidar com o desconhecido do “sal negro” e das “poções”.

“Shade – Entre Bruxas e Heróis”, exibido no Sundance Film Festival 2018 e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018, também quer abordar os problemas da puberdade, como o Bullying de “donos da escola” versus os “fracotes”; como a super proteção dos pais em relação a uma doença; e o momento exato de deixar o filho voar pelas próprias asas, mas sempre “aceitando a ajuda dos outros”, como para subir em um ônibus pela primeira vez. É a batalha de nosso protagonista contra o medo. De enfrentar novidades e o confortável engessamento. Quando adentra no novo mundo, possibilidades são desbravadas, por exemplo, emergir toda a força para conseguir subir uma escada. E ou ficar menos criança e mais adulto.

Essa dupla incomum, os “caçadores de bruxas”, com um que de “Intocáveis”, filme francês de Olivier Nakache e Éric Toledano, é “assaltada” pela realidade nua e crua. Do divórcio dos progenitores a avó realista demais, o pai “enfeitiçado”, tudo ainda é incompreensível. Juntos alternam suas idiossincrasias e atitudes repetidas com as experiências mundanas das próprias vidas. “Shade – Entre Bruxas e Heróis” é uma crônica de auto-ajuda seguindo os passos de “A Culpa é das Estrelas”, de Josh Boone, mas com um toque diferenciado. Mais passional, mais cru, mais impulsivo e mais fresco de uma nova cinematografia que cresce na Sérvia, mesmo que busque muitas referências na estrutura do cinema norte-americano. É sobre a amizade. Sobre plantar o carinho para ganhar o cuidado recíproco. Sobre normalizar sua existência. Sobre ser um super-herói “de um dia de cada vez”.

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