Por Fabricio Duque

 

O documentário “São Sebastião do Rio de Janeiro: A Formação de Uma Cidade”, de Juliana de Carvalho, é, acima de tudo, uma ode de amor a Cidade Maravilhosa por um trabalho histórico politicamente correto “chapa branca”, resumido em noventa minutos. Aqui, o enfoque é a geografia do Rio de Janeiro e não seu padroeiro. É uma aula linear sobre as mudanças cariocas desde sua formação. A narração equilibrada e de efeito de Leilane Neubarth, apresentadora da Rede Globo, fornece o equilíbrio rítmico como se fosse um desfile de uma escola de samba. Diferente dos filmes ficcionais críticos sobre a sede das Olimpíadas 2016, “A Morte de J.P. Cuenca”, de João Paulo Cuenca e ou “O Prefeito”, de Bruno Safadi, e dos documentários específicos sobre o Palácio Monroe em “Crônica da Destruição”, de Eduardo Ades, neste filme em questão, “São Sebastião do Rio de Janeiro: A Formação de Uma Cidade”, as críticas são por estatísticas e ou relatórios, e não reverberam críticas tampouco contestações. É uma experiência midiática-visual realizada para estrangeiros (“o encontro de gente do mundo que aqui vira carioca”), porque mostra o melhor de nossa cidade “Paris dos Trópicos” (a “ordem”, a “beleza” e o conserto de toda “insalubridade”) e uma forma de revisitar a história aos cariocas. É um documentário-propaganda que deveria ser divulgado oficialmente às delegações internacionais e ou um filme para melhorar nossa imagem no exterior. O longa-metragem faz com que o próprio morador retome a paixão, esqueça por um momento dos problemas e perceba que nós temos muito mais qualidades que defeitos (alimenta a esperança de que ainda podemos amar incondicionalmente este lugar). Inicia-se com uma música de carnaval. Hoje é o dia da alegria com imagens aéreas do Rio de Janeiro por icônicos monumentos (Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Relógio da Central) por drone e por helicóptero e a “eterna luta do rochedo contra o mar, entre o homem e a natureza, o show da Terra”, que “deu candomblé e deu samba”. É uma cidade eclética em estilos, vivências, influências, surtos arquitetônicos e em ligações ferroviárias (trens para “subúrbios”; bondes para “bairros”). “Todos os bairros são cariocas”, diz-se com efeito e com música clássico típico do Império (talvez uma crítica de pseudo resgate de um época produtiva). A narrativa ainda intercala com animações à moda de “Game of Thrones”, pinturas (como de James Cook), imagens de arquivos, tudo para ilustrar e explicar a geografia desenvolvida. É um livro-aula, por ângulos poéticos e simetricamente enquadrados, com depoimentos (anti-naturalistas e ou professorais e ou apaixonados) de historiadores, arquitetos, arqueólogos, professores de Hidrografia, urbanistas, decoradores, escritores, como Milton Teixeira, Alba Zaluar, Sérgio Cabral (pai), Paulo Canedo, Ruy Castro, Tânia Andrade, Nei Lopes, entre outros, sobre música barroca-popular, sincretismo político-social-religioso, “símbolos de poder de Igreja todas de ouro”, “portugueses que vinham e chicoteavam escravos”, as “ideias iluministas”, a “pequena África” (dos escravos alforriados em Santo Cristo, Gamboa, Saúde e Pedra do Sal), e o “excelente” governo do Rei Don João VI (que “preservou a Floresta da Tijuca”) e os paralelos de ontem (o passado em construção) e o hoje (ainda presente). Eis que surge, sutilmente, uma “alfinetada” crítica sobre as “obras que foram preparadas às pressas para receber os portugueses” e ou o Hotel Copacabana Palace que só ficou pronto um ano depois do previsto, isso nos faz imediatamente interconectar com as obras que são feitas no Rio de Janeiro. O documentário também tenta “remover” a pobreza visual, pontuando lugares históricos, como Mercadão de Madureira, Tia Ciata, o Sambódromo (e seu samba, que fez a inversão social em que negros-pobres “brincavam” de encarnar personagens da Realeza), por exemplo, em poéticos retratos. Tudo valida o “espaço de potência”, que vê a “favela não como exclusão”, e sim “como um lugar de maior vitalidade e família” (a Rocinha, de quatro mil para cento e vinte mil), que enaltece a intelectualidade de Copacabana e Ipanema, que chama a Barra da Tijuca de “Novo Rio”, que levanta questões filosóficas: O Rio é um lugar de “pedras ou ideias”? De carros ou bicicletas? Concluindo, um filme que traça uma geográfica pró-Rio, e que busca elevar a grandiosidade de nossa cidade. Definitivamente podemos dizer que nossas diferenças fazem do Rio o seu melhor. Como foi dito, um documentário didático para estrangeiro assistir e com isso amar ainda mais nosso lugar de rios, montanhas, praia samba, suor, cerveja e carnaval.

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