Crítica: Santos de Todos os Gols

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O Gol como Momento de Disrupção

Por Michel Araujo


Muito está envolvido numa partida de futebol para além do campo. Há toda uma narrativa a priori dos times, torcidas, jogos e campeonatos anteriores que convergem nessa “hora da verdade”. E por mais que toda uma história possa vir a se desenvolver, um time jogando com solidez e dominância, o corolário incontestável de todas as ações é o gol. Mesmo que um time tenha as melhores chances ou o melhor desempenho, se não conseguir coroar seus esforços com a conquista de um gol e o oponente conseguir, acabou. O gol é esse momento disruptivo que choca todos os torcedores de ambos os lados do estádio, capaz de calar uma torcida inteira e levar a outra ao delírio. É sobre esse poder decisivo, esse caráter finalizador, e esse espectro quase fantasmagórico que o gol lança sobre uma partida de futebol que o documentário “Santos de Todos os Gols” (2019) irá se debruçar.

Dirigido pela já bem consolidada Lina Chamie (“Santos: 100 Anos de Futebol Arte”, “São Silvestre”), este longa-metragem “Santos de Todos os Gols”, documental, irá investigar num sentido quase antropológico os fatores envolvidos numa partida tanto para os torcedores como para os jogadores, e o que representa a glória do gol, e a miséria do “não gol”, aquela imperdoável oportunidade dada porém perdida. A escolha do Santos Futebol Clube como símbolo icônico desse fenômeno parte não só do interesse da diretora – que já realizou anteriormente o documentário oficial do centenário do time -, como do estarrecedor fato de este ser o time com a maior quantidade de gols marcados no mundo, batendo mais de 12.500 goleadas. É admirável ao mesmo tempo que assustador.

A forma e conteúdo do filme são inseparáveis em se tratando de disrupção e choque. A montagem é impactante, conjugando excertos de narrações dos entrevistados com cenas documentais vibrantes dos momentos decisivos que estavam a ser narrados. O desenho de som por vezes mistura o momento presente do ato da narração com as vozes de torcidas ensandecidas quase como um eco da memória que está sendo revisitada. Ao início do filme há uma construção cômica porém muito verossímil do gol como um momento de orgasmo, como se fosse o final explosivo de todo um esforço, uma grande recompensa final. Curiosamente os entrevistados tem recordações e sentimentos muito similares a respeito das conquistas e derrotas, e numa visão geral acerca desse mito do gol, realmente fica claro como ele unifica o estado de espírito de milhares de pessoas no breve momento que a bola toca a rede.

Ironicamente o ponto mais forte da obra é também onde ela eventualmente peca: a montagem. Ao início temos cortes rápidos e precisos unindo as falas dos entrevistados, temos planos do estádio do time dialogando entre si numa geometria muito bem pensada que constrói imaginariamente uma espécie de fortaleza onde se escondem os mais de 12.500 gols na história do time, todo o fluxo e ritmo muito bem estruturado e muito sólido. Entretanto em determinadas entrevistas, notadamente dos jogadores, suas falas são interrompidas de forma não muito coerente, deixando no ar as histórias contadas que pareciam merecer um final mais concreto. Não é uma falha apenas na forma do filme, mas também no conteúdo, que perde sua potência de dramaticidade com esses momentos de “leviandade” com relação à sua estruturação. Isto não constitui um erro crasso, mas afrouxa o rigor com que o longa havia despontado.

Há muito que o filme esclarece ao mesmo que deixa em aberto – e com razão – acerca da mitologia do gol na cultura do futebol, em especial no Brasil. Tão desejado quanto temido quanto indescritível, não há o que se oponha ao seu poder numa partida. Como numa partida de xadrez em que uma jogada ruim pode anular quarenta jogadas boas, no futebol um deslize que permita a bola tocar a rede pode anular toda a imponência de um time afirmada por dois tempos inteiros. Existe algo de uma fé por parte dos torcedores que pode ser sustentada ou estilhaçada por esse único signo de vitória. A torcida em meio à partida afinal não é mais do que isso, uma fé de que seu time emergirá vitorioso, e o oponente não, e toda essa fé, é claro, recheada narrativas anteriores, pela história dos times, pelo curso que tomou um campeonato, que só a tornam ainda mais voraz quando a bola corre no campo. “Santos de Todos os Gols” faz muito bem o trabalho de conjugar a razão e a mitificação nesse fenômeno cultural do futebol, e mesmo para aqueles que não se atraem pelo clube, pode trazer um momento de reflexão interessante acerca de toda a energia que corre pelos entusiastas do futebol.

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