Crítica: Repulsa ao Sexo

Por Fabricio Duque

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A Loucura Iminente de Roman Polanski

Por Fabricio Duque

A arte imita a vida ou o contrário? É a pergunta retórica questionadora que nós espectadores pululamos em nossas mentes quando assistimos ao britânico “Repulsa ao Sexo”, de 1965, e referenciamos ao infortuno-caso julgado como crime sexual (a Suíça, no entanto, recusou extraditar o realizador, alegando falta de provas conclusivas) que seu diretor francês parisiense Roman Polanski (de “O Bebê de Rosemary”, “Tess”, “Chinatown”, “O Inquilino”, “Lua de Fel”) viveu doze anos depois do filme em questão, em onze de março, com uma modelo mirim de treze anos em uma Califórnia sensualizada ao extremo, em que tudo respirava sexo (impossível não referenciarmos a “Lolita”, de Vladimir Nabokov, publicada em 1955, dez anos antes). Por lógica factual, respondemos que foi o contrário, que talvez seu diretor tenha acreditado que não havia limites a seu prazer machista, tema este que passa a mensagem de potencializar a crítica de que todos os homens, sem exceção, “lobos” por instinto, veem as mulheres como “carniças de um cordeiro ao abate” e como meros objetos sexuais.

“Repulsa ao Sexo” é um prato cheio ao universo psiquiátrico, por abordar o “Transtorno de Aversão Sexual”, caracterizado pela rejeição extrema e persistente a todo tipo de contato genital com outra pessoa (gerando asco e ansiedade no paciente – uma inversão máxima à ninfomania – mas nas das fobias a causa é a mesma: autoproteção pela fuga). Este, um estudo de caso de paranoia no campo da ficção, é exatamente a repulsa que a personagem principal Carol Ledoux (a atriz Catherine Deneuve) sofre, entrando em uma profunda depressão que beira loucura patológica por atormentadas e assustadoras alucinações com estupros e atos iminentes de violência.

O longa-metragem inicia-se aludindo à cena surrealista dos olhos e pupilas dilatadas de “Cão Andaluz”, do cineasta Luis Buñuel (que aqui navalha é usada como uma defesa da legítima defesa, que enaltece a forma feminista e fornece uma liberdade emancipada às mulheres (que precisam usar “máscaras faciais” e estarem perfeitas todo o tempo) contra uma sociedade que aceita o poder patriarcal, que não revida e só espera o “tique taque” intermitente que perpetua esta “monstruosa” massificação masculina, imbuído em um repetitivo bumbo perturbador que estimula o intrínseco desejo (dentro de casa – porque na rua é um animado jazz que lembra a atmosfera de “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla com a liberdade poética da mesclagem da Nouvelle Vague com Alfred Hitchcock).

“Repulsa ao Sexo” tem fotografia em preto-e-branco a fim de pausar seu tempo e sua época e criar uma distância com a realidade, permitindo-se a imersão personificada e contextualizada na loucura da protagonista, m suas micro-ações cotidianas de trabalhar em um “fútil” Salão de Beleza para clientes “dondocas”, realistas e que dão “opinião-aula de graça” sobre os homens. “Só tem uma forma de tratar os homens: como se eles não importassem. Quanto mais suplicarem, mais felizes ficam”, “ensina-se”.

O roteiro, por detalhes escondidos, constrói um universo em que a voz das mulheres não importa, assim, cantadas grosseiras de um peão de obra querendo “mostrar sua furadeira” e ou a espera da resposta em uma conversa apática e ou das investidas de “orgulho ferido de macho” de um “pretendente” (que é pressionado pelos amigos), tudo é unicamente um flerte hipócrita que pela “convenção” não pode encontrar recusa de “jovens e bonitas”, que foram feitas para o prazer, para cozinhar e para manter em casa (principalmente as amantes) a volta da vontade-apetite (que não consegue esperar nem mesmo para “deixar que elas provem os atributos culinários” e sim ir direto ao ponto: levar para jantar – por ser mais rápido) por seus corpos. Sim, “Repulsa ao Sexo” é um filme totalmente feminista. E o grito de que ela não precisa ceder aos caprichos sexuais dos homens.

Uma de suas maestrias é a metáfora da presença de sua câmera e seus ângulos, como no chão focando o rodapé e os pés, de cima para baixo, como uma indicação de uma invertida submissão que encontra o comportamento diferente “obrigatório” (e que, mesmo “incapaz” de luta, saídas radicais podem ser levadas à frente). A casa é uma entidade. Entre bibelôs, foto de família, uma irmã impaciente, baladeira e saideira “femme fatale” (já “abduzida” pela sociedade e que seu namorado vê a mais nova como “Cinderela”) e um cachorro (de pelúcia), ela olha freiras que se divertem com horário marcado e que quando o sino toca, vê a prisão instaurada e a falta da alegria. É a vida da mulher “bela, recatada e do lar”, imposta pela Igreja e pela “culpa”. Talvez neste momento, com todos os estímulos externos ao sexo, ela, viajando no pensamento interno, embarque na radical literalidade da auto-proteção a fim de impedir seu sofrimento póstumo ao ato sexual, de não compactuar com mulheres como objetos a mercê da vontade dos homens, e da crença máxima de seu “Segundo Sexo”, referência a Simone de Beauvoir.

Tudo é potencializado pelos ruídos. O pingo intermitente da pia, os ponteiros do relógio, o barulho do cotidiano que vem da rua, o barulho exagerado de um ato sexual. Mesmo assim, nada é estimulado, e cada vez nossa protagonista aumenta sua aversão e asco a sua fobia. O que percebemos é que estamos nos ambientando na loucura de seu estágio mental e suas deturpações perceptivas: as sombras, as perseguições, as muitas pedras de açúcar no café, as rachaduras, sua roupa sempre de branco que lembra uma “santa barroca”, um grupo de banjo, os sinais, os sinos, suas expressões, os tarados pervertidos no telefone, o free jazz catártico, a cidade como uma praça de guerra, a Torre de Pizza, a vida Fellini da “La Dolce Vita”, tudo indica teor sexual, até mesmo em um filme de Charles Chaplin (e um homem gordo que quer o comer por vê-lo como um frango assado).

“Repulsa ao Sexo”, com “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Inquilino” (1976), integra o primeiro filme de uma trilogia pessoal do diretor sobre os horrores vividos por moradores de apartamentos em cidades, é um filme altamente recomendado. Datado em sua forma, mas não em sua essência temática de terror psicológico, esta, pelo contrário, está mais atual que nunca. O que incomoda no paciente que tem o diagnóstico é que sexo está em toda a parte, e que, assim como no filme, a consequência pode gerar uma trágica defesa de auto-proteção. Ganhou o Urso de Prata de Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim 1965.

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