A honra de um faroeste melancólico

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018


Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018, “Raiva”, sessão de encerramento do Indie Lisboa do mesmo ano, apresenta-se como um filme teatro de ações e olhares, em uma estética conceitual-orgânica, à moda do cineasta Béla Tarr e seu “O Cavalo de Turim”, principalmente por sua poética fotografia em preto-e-branco (que estreita os limites entre ficção e realidade encenada e que é “mais verdadeiro que a cor”), conjugada com a melancolia internalizada do diretor Miguel Gomes, de “Tabu”.

Livremente inspirado no romance “Seara do Vento”, de Manoel da Fonseca, o longa-metragem dirigido pelo brasileiro aportuguesado Sérgio Tréfaut (de “Viagem a Portugal”, “Lisboetas”), “Raiva”, um psicológico faroeste existencial, pauta-se no silêncio, na penumbra e no super-close agressivo (referenciando o cinema do sueco Ingmar Bergman), “que diz mais que palavras”, e no noturno “macio que nem veludo”, para abordar um dos temas mais antigos do mundo: a vingança da honra.

O longa-metragem é sobre a revolta de uma família, que sofre retaliações por secretas ligações, montadas como peças de um quebra-cabeça. Nos remotos campos do Baixo Alentejo, no sul de Portugal, a miséria e a fome assolam a população. Quando dois violentos assassinatos acontecem em uma só noite, um mistério toma o lugar: qual poderia ser a origem desses crimes?

“Raiva”, que se ambienta em uma atemporal terra sem lei, entre poeira, fumaça, ”arruaceiro com vergonha de ser pobre”, formigas na mão, tiroteiro e contrabandos, objetiva mais o tom comercial que o autoral. Mais “Zama”, de Lucrecia Martel, que “Vazante”, de Daniela Thomas. Há uma forçada atmosfera mascarada com os olhares apáticos e encenados de seus atores. E sua história retorna para explicar as causas dos acontecimentos do presente.

É também sobre a humilhação social. Dos que têm muito rebaixando ainda mais os que não têm nada. Apenas “sopa de alho todo dia”. Os problemas como o filho autista tornam-se embates do orgulho versus poder. Mas a avó não se importa com essas pequenezas da comunidade-vilarejo e pede o dinheiro, à moda da peça “Mãe Coragem e os Seus Filhos”, de Bertolt Brecht.

Mas o roteiro soa fora de tom quando usa o artifício do didatismo para explicar o que já está claro. Assim o equilíbrio perde a sutileza e fica urgente, como “vai bêbado ao trabalho, mas traz o pão”. Há algo de amador, de ingênuo, de improvisado e de desengonçado, que às vezes transpassa que ainda está no ensaio.

“Raiva” é sobre os limites que o ser humano aguenta; e sobre a hostilidade, egoísmo e crueldade de um próximo que insulta e gera a defesa do vitimismo. É “engolir e calar”. E aceitar as mínimas felicidades: comida, por exemplo. O filme caminha no limite tênue da fragilidade. A construção quer o realismo espontâneo e menos sensibilidade, mas peca pelo imediatismo de não esperar inferências. É também sobre o machismo de uma época, em que as viúvas esperam em casa, vestidas de preto. “A primeira vez é sempre a pior”, diz-se com melancolia resignada e com solidariedade revolucionária dos iguais na mesma condição e situação. É a parábola de Golias versus Davi.

Suas personagens são prisioneiras da própria vida. Exiladas do mundo real. Sôfregas em seus universos limitados. O que resta? Seguir adiante, procurando no pecado e na inversão moral uma faísca de permanecer existindo. São visíveis e palpáveis fantasmas e estão além das regras de Alentejo na década de cinquenta, nos campos desertos do Sul de Portugal.

“Raiva”, produzido pela Refinaria Filmes, distribuído pela Pandora Filmes e assessorado pela Sinny Assessoria e Comunicação, que conta no elenco com Isabel Ruth, Leonor Silveira e Hugo Bentes, é acima de tudo um estudo de caso sobre o ser humano e sua incompatibilidade da convivência.

É um mundo embrutecido, primitivo, amalgamado na culpa e na prestação de contas com o outro. Há uma retroalimentação de dramas cúmplices, que existem mais para preencher o tempo de seus tédios que para oficializar disputas. Ocupar o ócio é o vício de cada um deles. E é assim que seu filme tenta traduzir uma época imatura e desentendida de um Western aceitável de uma lugarejo que perpetuou a violência raivosa e postergou o progresso deste “Neorrealismo Lusitano”.

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