Causa e efeito

Por Fabricio Duque


A escritora infanto-juvenil Thalita Rebouças disse em uma de suas entrevistas que os jovens, independentemente de épocas, sempre sofrerão com as mesmas padronizadas e condicionadas questões existenciais da idade. Talvez por causa de suas imaturidades e falta da perspicácia de conhecimento de mundo, esses seres em transição e em processo de construção reverberem tanto suas defensivas vulnerabilidades.

A revista Isto É complementa o tema na matéria “Por dentro da mente de um adolescente”, de Cilene Pereira e Mônica Tarantino. O especial elenca características típicas, como o “gosto pelo risco”, a “explosão de hormônios”, a “dificuldade para pegar no sono”, “sentimentos intensos”, o “prazer antes de tudo” e a “dificuldade de organização”.

Sim, não é uma fase fácil, principalmente aos pais de agora, alguns mais rebeldes que seus filhos. E que invertem os papéis, tornando-se mais amigos (de beber, fumar e tomar drogas juntos) para que assim possa facilitar a criação. É o momento da puberdade, da ansiedade, da pressa imediatista de se tornar adulto (para fazer tudo o que for possível e impossível), da percepção de indestrutibilidade.

“Querido Menino”, dirigido pelo belga Felix Van Groeningen (de “Alabama Monroe”, “Bélgica”), é um estudo de caso sobre as consequências das drogas de um menino em uma família liberal. Objetiva-se assim o entendimento de que cada ser humano é patologicamente diferente, ainda que integrantes do mesmo meio social. Uns mais vulneráveis, outros, controlados.

O longa-metragem é uma cinebiografia adaptada do livro homônimo de David Sheff (o pai, interpretado aqui por Steve Carell) e “Tweak” (algo como “Puxão” em uma tradução literal), de Nic Sheff (o filho pelo ator Timothée Chalamet, que protagonizou o filme “Me Chame Pelo Seu Nome”, dirigido por Luca Guadagnino). A questão focal quer discutir as relações familiares em uma época complicada para se criar filhos, talvez pela incompatibilidade de pais imaturos que acham que educar significa liberdade total e irrestrita a seus rebentos amados incondicionalmente.

“Querido Menino” é também um filme musical. Suas músicas conduzem momentos e fases, criando uma atmosfera blasé e de nostalgia importada do estilo Hipster (o de “pertencer” com casualidade), uma filosofia independente de reviver modernamente um passado adaptado no presente (com itens retrô e vintages, transitando entre o atual e o antigo), com sons que pausam o tempo em uma melancolia esperançosa acoplada na resiliência do existir.

Do sensorial catártico dos grupos Mogwai, Sigur Rós e Massive Attack ao rock andrógeno de David Bowie; do punk agressivo de Nirvana ao jazz orgânico de Coleman Hawkins e John Coltrane; do folk melódico de Neil Yong ao rock histérico do Le Tigre; a trilha sonora cria o resumo cirúrgico com “Beautiful Boy”, de John Lennon (em fase ex-Beatles) e encontra o tom exato com “Song to the Siren”, em performance de Tim Buckley (música traduzida para diversas línguas, entrando inclusive no filme israelense “The Bubble”, de Eytan Fox).

David Sheff é um conceituado jornalista e escritor que vive com a segunda esposa e os filhos. O filho mais velho, Nic Sheff, é viciado em metanfetamina e abala completamente a rotina da família e daquele lar. David tenta entender o que acontece com o filho, que teve uma infância de carinho e suporte, ao mesmo tempo em que estuda a droga e sua dependência. Nic, por sua vez, passa por diversos ciclos da vida de um dependente químico, lutando para se recuperar, mas volta e meia se entregando ao vício.

“Querido Menino” tenta entender a causa e o efeito. E culpa. O grande número de jovens acreditam na ideia que precisam explorar o mundo ao máximo, experimentado tudo e todos. É uma forma de cerimônia social. Inevitavelmente, o espectador referenciará a “Diário de Um Adolescente” (1995), de Scott Kalvert, com Leonardo DiCaprio no papel principal. “Maconha te tira da realidade estúpida todos os dias”, diz-se, entre o “fascínio da loucura”.

O filme também procura abrigo na literatura Beatnik de Charles Bukowski, especialmente no poema “Let It Enfold You (“Deixa eu envolver você”)”, em “Betting on the Muse: Poems and Stories” (“Apostando na Musa: Poemas e Histórias”), declamado por Nic em uma sala de aula. Este é outro artifício narrativo que conduz seus espectadores pela atmosfera objetivada (“Eu estava vivendo um inferno em quartos pequenos, eu quebrei coisas, coisas esmagadas, amaldiçoado. Eu desafiei tudo, estava sendo continuamente despejado, preso, em e fora de lutas, dentro e fora da minha mente”).

Contudo, “Querido Menino”, indicado nas premiações, incluindo Melhor Ator no Globo de Ouro, acaba por se engessar na tentativa de naturalizar demais suas interpretações. Há uma preocupação demasiada em parecer espontânea, em silenciar o sofrimento. É uma armadilha, porque a técnica formal (músicas, lembranças, projeções, os desenhos dos demônios internos à tona, a reabilitação, a recaída) prevalece na liberdade da encenação, distanciando o público, que é nivelado pela obviedade da carga dramática, sem aprofundá-la com a sensibilidade da verdade. É um filme para contemplar o livre-arbítrio, que respeita decisões e tempo de cada um. Sim, ser pai é padecer no paraíso, um pouco à moda de “Meu Querido Filho”, de Mohamed Ben Attia.

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