Crítica: Persona: Quando Duas Mulheres Pecam

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Espelhos confrontados e analisados

Por Fabricio Duque


Talvez a mais importante característica das obras do cineasta sueco Ingmar Bergman seja mesmo a importação dos plurais e possíveis estágios mentais ao cotidiano realista que se comporta como um teatro da própria vida. Suas personagens personificam seus fantasmas, delírios, quereres, conflitos, medos e suas imoralidades, bipolaridade, múltiplas identidades, tudo traduzido por uma narrativa de cognitiva análise psicanalista, confundindo loucura com a projeção da viagem mais aprofundada da alma, lugar que o subconsciente não encontra defesas, tampouco fugas. É uma superexposição da verdade pelas memórias contadas, que podem criar truques e mentiras fantasiosas.

“Persona”, ou “Quando Duas Mulheres Pecam”, tradução brasileira ao filme de 1966, nós espectadores mergulhamos mais uma vez no universo bergmaniano, diretor e autor que no documentário “Bergman 100 Anos” assumiu que nunca fez terapia. Pois é, sua cura talvez aconteça quando dilacera por autópsia suas questões pessoais mais perturbadoras com a proteção da arte ficcional. Bergman não se importa em expor suas neuroses, idiossincrasias e medo da morte, principalmente quando escala uma ex-mulher e a atual (e as coloca para contracenar juntas e “lavar roupa” em cena – tudo com um extra alto nível de maturidade adulta) em sua casa na ilha de Fårö, 70 quilômetros a norte de Estocolmo.

É um longa-metragem de mensagens subliminares e de crítica à guerra social, que emudece e paralisa, tornando todos apáticos e fora do próprio corpo. A solução talvez seja não mais falar e diminuir a mobilidade física. É também um filme vanguardista, por inserir no início flashes ultra rápidos (entre eles um pênis ereto; trechos de seu filme “Prison”, de 1949; um homem prisioneiro em um quarto; o abate de uma ovelha; até culminar na imagem de um menino que “Um herói de nosso tempo”, de Michail Lermontov), por conduzir a câmera como uma sensação personagem que humaniza o sadismo e a perversidade habitada em todo e qualquer ser humano não humanizado. São personagens dúbios, com olhares malignos, sarcásticos risos julgadores, silêncio contemplativo e verborragia de falas incessantes.

É um teatro cinematograficamente encenado à moda de Samuel Beckett, Henrik Ibsen e August Strindberg. Suas personagens arrastam-se pela linha tênue de suas próprias sombras internas (que se tornam visíveis quando ninguém mais está olhando), dos protestos de lá fora, do “sonho inútil de ser o que acham que querem ser”, de mensurar a quantidade de “experiência da vida”, da pressão de “estar sempre alerta”, até porque uma das personagens é uma atriz que não consegue sair do papel que interpreta na própria vida. É sobre espelhos, reflexos e complexas máscaras que o ser humano usa a ponto de não mais se reconhecer. Aqui nós somos todos e ninguém.

A história começa quando a enfermeira Alma (a atriz Bibi Andersson) é escolhida para cuidar de Elisabeth Vogler (Liv Ullmann – nome da personagem amante no filme “A Hora do Lobo”, que Bergman fez em seguida, e que se utilizou de ruídos da construção deste para criar a abertura atmosfera do outro), uma atriz que surtara em uma de suas apresentações – a tragédia de Sófocles, Electra – e que se isolou do mundo, permanecendo em constante silêncio. Apesar de Elizabeth ser tida como catatônica, ela reage com extremo pânico ao ver na televisão um monge budista se auto-imolando.

As duas vão para uma casa da administradora do hospital. À busca da tranquilidade. A princípio, Alma era a enfermeira que deveria acompanhar e cuidar da paciente mas desenvolve uma relação de amizade e acaba confidenciando seus segredos carnais – sua traição, sua orgia com um adolescente e seu aborto – como uma forma de quebrar o silêncio. O conflito entre as duas origina-se quando Elisabeth escreve uma carta para o hospital, revelando o segredo de Alma. Esta fica furiosa e agride verbal e fisicamente a paciente. Nessa cena o silêncio de Elisabeth se quebra e ela, com medo de morrer, grita. No decorrer do filme Alma fica em constante monólogo, porém consegue descobrir o motivo que levou ao silêncio repentino da atriz.

“Persona” é sobre “a luta: o que você é com os outros e o que você realmente é”. É sobre detalhar sensações e porquês. Nada é certo ou errado. Não há maniqueísmo e ou moralismos, e sim a plenitude da exploração de qualquer experiência. Nós somos sequestrados a adentrar na perda dos limites da psique humana, entre sonhos, aparições, borrões ou reais projeções do desejo mais primitivo. Tudo é verdade e também mentira. Uma “ama inocentemente e encantadoramente”. A outra é tecnicamente realista. Quem está errada? Qual é a louca? Há dois seres distintos ou uma é a complementação conflitante da outra? Com ou sem “vozes na cabeça”. Com ou sem “cheiro de sono e lágrimas”.

A própria narrativa caminha pelo ritmo descontínuo, quebrando a forma com uma surreal metalinguagem. A vida é interferida pela ficção, que, por sua vez, recebe intensos estímulos da realidade. Cada ser vivo é sua própria morte. Com seus lutos, silêncios, prerrogativas, confrontos, cobranças, solidões, imaturidades passionais, surtos infantis, reações, medo real da morte, vulnerabilidades, intimidações, sensibilidades aguçadas e excessivos dramas.

A fotografia é uma aula à parte de cinema, porque transpassa metáforas pelo disfarce da luz artificial que tenta de todo modo postergar a tão temida Hora do Lobo, uma parte da madrugada que o desespero corrói e, sem capa de proteção, a queda ao abismo é inevitável. Sim, fisiologicamente, o trabalho de todo e qualquer corpo é buscar novas perspectivas. Pelo movimento. Pela reação. E até mesmo pela completa letargia.

“Persona” é considerado pelo guia do New York Times, em sua lista dos mil filmes, como uma das melhores obras já realiza. E também o queridinho de dez entre dez críticos de cinema. É um filme sobre a vida nua, crua e como ela é, mitigada de hipocrisias e vestimentas sociais, estas que suavizam o parecer das relações humanas. Sobre rostos. Sobre aparências. Jean-Paul Sartre disse que “O inferno são os outros”. Sim, e assim, nós somos o inferno do outro também. Ninguém se salva. Só a solidão em uma ilha. Bergman costumava dizer que este filme salvou sua vida, pela catarse consciente que teve internado durante nove meses devido a uma pneumonia. Sim, nasce um filho-filme perfeito. Uma simulação da realidade na ficção, que não encontra fronteiras e barreiras e se perde no emaranhado das manipuladas sinapses de uma inquieta mente brilhante.

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