Por Fabricio Duque

 

“Os Campos Voltarão” reverbera o tema da guerra com viés existencialista e sinestésico, este adjetivo porque opta por aprisionar o espectador no universo abordado, traduzido com as definições de já “morto”, desesperançoso, apático e de resignação depressiva sem a expectativa de futuro, especificamente pela fotografia sépia, quase preto-e-branco, desbotada de uma fotografia antiga perdida nas lembranças seletivas e que “rouba as vidas de seus soldados”, estes , por sua vez, que não se diferenciam em nada dos iminentes-“procurados” inimigos prisioneiros. O filme do italiano Ermanno Olmi (mais documentarista que ficcional, de “A Árvore dos Tamancos”, “A Lenda do Santo Beberrão”) questiona o real objetivo da permanência em uma campo de batalha, visto que mesmo os sobreviventes não se recuperam das atrocidades sofridas e ou vivenciadas, e se tornam fantasmas perceptíveis esperando o fim “oficial” da própria vida. A narrativa, que corrobora a estrutura comportamental-sentimental típica do povo da Itália, embrenha-se no classicismo do Neo Realismo Italiano, com suas análises existencialistas de uma narração que se utiliza da verborragia do melodrama exagerado para transpassar as agruras e tristezas da alma, que se excetuam por lampejos de esperança, como a cantoria que fornece uma “pseudo” liberdade, projetada ao desejo intrínseco da fuga daquele lugar, mas que no todo só cumprem “ordens criminosas” dos mandantes que ali não aparecem. É inevitável não nos questionarmos sobre os motivos reais de uma guerra, que utilizam seres humanos dotados de sonhos e projetos como “material bruto” de um jogo-competição cruel e surreal, que mais precisa de sorte individual que necessariamente técnica. O longa-metragem mescla a poesia concretista-onírica da neve e dos sinalizadores no céu com imagens factuais de guerras e suas consequências nos indivíduos que nela participam. Concluindo, um filme de curta duração (um pouco mais de setenta minutos), contido, direto e que obrigatoriamente precisa ser assistido na tela grande de um bom cinema. Recomendado.

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