Crítica: O Rei de Roma

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Inofensivo demais

Por Pedro Guedes


Há alguns meses, quando escrevi sobre a comédia francesa “Praça Pública”, comentei que as intenções da cineasta Agnès Jaoui eram promissoras, pois boa parte do senso de humor exibido por aquele longa consistia em ridicularizar os costumes fúteis, hipócritas e egoístas de uma elite mesquinha – em contrapartida, o roteiro não se mostrava capaz de levar seus temas além disso, o que transformava o filme em uma grande piada cuja que acabava perdendo a graça com uma rapidez inesperada (e indesejada). Agora, me vejo obrigado a dizer o mesmo sobre “O Rei de Roma”, que, dirigido e co-escrito pelo italiano Daniele Luchetti, não desenvolve suas ideias a ponto de justificar seus 97 minutos de duração.

Roteirizado por Luchetti ao lado de Giulia Calenda e Sandro Petraglia, “O Rei de Roma” conta a história de Numa Tempesta (não é à toa que o título original do filme é “Io sono Tempesta”; ou “Eu Sou Tempesta”), um empresário que trabalha no ramo da engenharia e vive fechando negócios com imenso potencial financeiro. Eis que o sujeito acaba tomando algumas decisões equivocadas – sempre motivadas, claro, pela ganância – e, como consequência, acaba condenado a prestar um ano de serviços comunitários, convivendo com todas aquelas pessoas e famílias que vivem empobrecendo às custas do enriquecimento das classes média e alta.

Como dá para perceber apenas ao ler a sinopse descrita acima, “O Rei de Roma” é uma crítica ao comportamento burguês e explorador que faz parte da mentalidade de muitos empresários (não todos, mas muitos – não vamos generalizar, por favor). O cenário que Luchetti aborda aqui é um dos mais clássicos do capitalismo: enquanto os pobres ficam cada vez mais pobres e trabalham ganhando salários miseráveis, os ricos seguem vantajosos e aproveitando o proletariado. A partir daí, o longa consegue criar algumas boas piadas que apontam e ridicularizam a hipocrisia e o método desumano da elite, debochando de hábitos comuns através de tiradas inspiradas – o problema, porém, é que existem alguns momentos em que o filme se confunde na hora de direcionar o alvo de suas piadas: de vez em quando, o roteiro acredita estar ironizando as classes privilegiadas sem perceber que, na verdade, está rindo dos mais pobres (e essa falta de direcionamento ao construir algumas gags certamente prejudica o resultado final).

De qualquer forma, é difícil cobrar muito de um roteiro que mal exibe qualquer traço de sutileza ao discutir seus temas, criando um protagonista que desde o princípio parece gritar para o espectador qual será seu arco dramático (Tempesta é um empresário escroto que não dá ouvidos aos clamores dos oprimidos, então… que outro destino ele terá a não ser perceber, na medida do possível, o quão errado está?). Em compensação, o trabalho do ator Marco Giallini é bem-sucedido ao contornar as fragilidades do roteiro: do início ao fim, a persona sarcástica, aborrecida e egocêntrica de Numa Tempesta é retratada de maneira divertida, levando o espectador a rir do personagem sem deixar de condenar suas atitudes e seus pensamentos.

Ao mesmo tempo, a direção de Daniele Luchetti e a fotografia de Luca Bigazzi surpreendem através de um ou outro plano elegantes em suas composições imagéticas, como o longo take que acompanha Tempesta caminhando nos corredores de sua vasta cobertura e os planos-detalhe que servem para ressaltar o quão metódico é o protagonista. É uma pena, no entanto, que a trilha sonora se desespere ao mastigar para o espectador cada sensação que este deverá ter ao longo da projeção, investindo em composições engraçadinhas que provocam o embaraço ainda na sequência dos créditos iniciais (e que não melhoram muito com o decorrer da projeção).

Assim, o que resta dizer é que “O Rei de Roma” poderia ter sido uma pequena obra-prima caso o roteiro e a direção demonstrassem uma acidez maior. Em vez disso, ambos preferiram seguir um caminho mais seguro e simplista, sem desenvolver seus temas de maneira particularmente desafiadora ou marcante. Do jeito como está, o filme é inofensivo demais para causar qualquer impacto definitivo no público, culminando em uma experiência que diverte ocasionalmente, mas que começa a se dissipar na memória do espectador assim que as luzes do cinema se acendem.

Neste sentido, “Praça Pública” e “O Rei de Roma” não poderiam formar uma sessão dupla mais apropriada.

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