Isso saiu dos anos 2000?

Por Pedro Guedes


Há pouco mais de dez anos, os animais falantes eram quase onipresentes nas animações de todos os estúdios: “Madagascar”, “O Galinho Chicken Little”, “Selvagem”, “O Segredo dos Animais”, “Os Sem Floresta”, “O Bicho Vai Pegar” e um monte de outros projetos similares chegavam aos cinemas quase toda semana – não é à toa que, depois de um tempo, o tema começou a cair em desuso, pois as crianças deixaram de se encantar com a possibilidade de um animal falar e estrelar uma aventura. “O Parque dos Sonhos” é um longa que parece saído daquela época, já que, embora protagonizado por uma garota humana, se vende graças principalmente aos ursos, porcos-espinhos, macacos, castores e javalis falantes que surgem em cena.

Produzido pela mesma Nickelodeon que nos apresentou a “Jimmy Neutron” e ao próprio “O Segredo dos Animais”, “O Parque dos Sonhos” é basicamente um piloto de uma hora e meia para uma série de TV que já está programada para estrear nos canais a cabo (ou seja: a Nickelodeon está repetindo a estratégia que usou nos dois longas que citei no início deste parágrafo e que estrearam nos cinemas antes de serem adaptados para a Televisão). A trama gira em torno de June, uma menina criativa e empolgada que inventa, ao lado de sua mãe, um mundo de brinquedo chamado Parque dos Sonhos – e a imaginação da garota chega ao ponto de chamar a atenção das crianças vizinhas, que também querem participar da brincadeira. Depois que seus pais se separam e sua mãe acaba tendo que se distanciar, June se desfaz do Parque a fim de evitar más recordações; o que muda, no entanto, quando a pequena vai parar numa floresta e descobre que o Parque dos Sonhos, em si, existe de verdade.

Em outras palavras: clichês, clichês e mais clichês. Não, “O Parque dos Sonhos” jamais consegue fugir do lugar comum, limitando-se a reciclar ideias que já foram exploradas à exaustão em milhares de outras obras e criando personagens que poderiam ter saído de qualquer outra animação similar. Mas isso não importa, já que qualquer história, por mais batida que seja, pode ser recontada de forma inspirada e interessante – o que, infelizmente, não é o caso desta animação, que ainda comete o erro de açucarar em excesso as passagens mais dramáticas da narrativa: logo quando a mãe de June se afasta e a menina arremessa o Parque dos Sonhos numa lareira, os eventos que se sucedem a partir daí são sempre acompanhados por melodias tristes e por uma composição visual dolorosamente cafona. Ao mesmo tempo, são poucos os momentos em que o senso de humor dá sinais de vida, tornando-se particularmente embaraçoso num instante em que o porco-espinho interrompe uma conversa séria com uma informação boba.

Contando uma história chata e repetitiva, “O Parque dos Sonhos” ainda é prejudicado pela mediocridade do roteiro de Josh Appelbaum e André Nemec, que revela-se frouxo e inconsistente em sua estrutura: a narrativa, em especial, parece não saber para onde ir, começando com os problemas pessoais de June e prosseguindo com a chegada ao Parque dos Sonhos apenas para, do nada, inventar uma trama tola que envolve um exército de macacos zumbis – e de que adianta sugerir que certo personagem desempenhará uma função importantíssima na trama se ele surgirá em apenas dois ou três momentos? Para piorar, o neologismo que os integrantes do Parque dos Sonhos utilizam (“Espetaculíssimo!”) consegue irritar o espectador ainda nos primeiros cinco minutos da projeção, o que é sintomático.

Em compensação, o design de produção aproveita bem a oportunidade de imaginar um mundo que, em essência, é um parque de diversões imenso – e a criatividade se manifesta através de tobogãs feitos com canudos dobráveis e coloridos, montanhas russas que parecem infinitas, robôs-aranhas que servem para reconstruir brinquedos danificados e macaquinhos multicoloridos. Da mesma forma, a direção – que ficou por conta de Kendra Halland e dos próprios Josh Appelbaum e André Nemec – de vez em quando surpreende o espectador ao investir em quadros mais movimentados e dinâmicos, conferindo uma agilidade visual à obra que ajuda a aproximá-la do espectador.

Na maior parte do tempo, porém, “O Parque dos Sonhos” é uma animação tecnicamente razoável, narrativamente medíocre e dramaticamente artificial. Como se não bastasse, os personagens são aborrecidos e sem personalidade (com exceção dos dois castores gêmeos, que são divertidinhos), o que consolida de uma vez por todas a natureza inócua da produção como um todo.

 

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