Crítica: O Parque dos Sonhos

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn

Isso saiu dos anos 2000?

Por Pedro Guedes


Há pouco mais de dez anos, os animais falantes eram quase onipresentes nas animações de todos os estúdios: “Madagascar”, “O Galinho Chicken Little”, “Selvagem”, “O Segredo dos Animais”, “Os Sem Floresta”, “O Bicho Vai Pegar” e um monte de outros projetos similares chegavam aos cinemas quase toda semana – não é à toa que, depois de um tempo, o tema começou a cair em desuso, pois as crianças deixaram de se encantar com a possibilidade de um animal falar e estrelar uma aventura. “O Parque dos Sonhos” é um longa que parece saído daquela época, já que, embora protagonizado por uma garota humana, se vende graças principalmente aos ursos, porcos-espinhos, macacos, castores e javalis falantes que surgem em cena.

Produzido pela mesma Nickelodeon que nos apresentou a “Jimmy Neutron” e ao próprio “O Segredo dos Animais”, “O Parque dos Sonhos” é basicamente um piloto de uma hora e meia para uma série de TV que já está programada para estrear nos canais a cabo (ou seja: a Nickelodeon está repetindo a estratégia que usou nos dois longas que citei no início deste parágrafo e que estrearam nos cinemas antes de serem adaptados para a Televisão). A trama gira em torno de June, uma menina criativa e empolgada que inventa, ao lado de sua mãe, um mundo de brinquedo chamado Parque dos Sonhos – e a imaginação da garota chega ao ponto de chamar a atenção das crianças vizinhas, que também querem participar da brincadeira. Depois que seus pais se separam e sua mãe acaba tendo que se distanciar, June se desfaz do Parque a fim de evitar más recordações; o que muda, no entanto, quando a pequena vai parar numa floresta e descobre que o Parque dos Sonhos, em si, existe de verdade.

Em outras palavras: clichês, clichês e mais clichês. Não, “O Parque dos Sonhos” jamais consegue fugir do lugar comum, limitando-se a reciclar ideias que já foram exploradas à exaustão em milhares de outras obras e criando personagens que poderiam ter saído de qualquer outra animação similar. Mas isso não importa, já que qualquer história, por mais batida que seja, pode ser recontada de forma inspirada e interessante – o que, infelizmente, não é o caso desta animação, que ainda comete o erro de açucarar em excesso as passagens mais dramáticas da narrativa: logo quando a mãe de June se afasta e a menina arremessa o Parque dos Sonhos numa lareira, os eventos que se sucedem a partir daí são sempre acompanhados por melodias tristes e por uma composição visual dolorosamente cafona. Ao mesmo tempo, são poucos os momentos em que o senso de humor dá sinais de vida, tornando-se particularmente embaraçoso num instante em que o porco-espinho interrompe uma conversa séria com uma informação boba.

Contando uma história chata e repetitiva, “O Parque dos Sonhos” ainda é prejudicado pela mediocridade do roteiro de Josh Appelbaum e André Nemec, que revela-se frouxo e inconsistente em sua estrutura: a narrativa, em especial, parece não saber para onde ir, começando com os problemas pessoais de June e prosseguindo com a chegada ao Parque dos Sonhos apenas para, do nada, inventar uma trama tola que envolve um exército de macacos zumbis – e de que adianta sugerir que certo personagem desempenhará uma função importantíssima na trama se ele surgirá em apenas dois ou três momentos? Para piorar, o neologismo que os integrantes do Parque dos Sonhos utilizam (“Espetaculíssimo!”) consegue irritar o espectador ainda nos primeiros cinco minutos da projeção, o que é sintomático.

Em compensação, o design de produção aproveita bem a oportunidade de imaginar um mundo que, em essência, é um parque de diversões imenso – e a criatividade se manifesta através de tobogãs feitos com canudos dobráveis e coloridos, montanhas russas que parecem infinitas, robôs-aranhas que servem para reconstruir brinquedos danificados e macaquinhos multicoloridos. Da mesma forma, a direção – que ficou por conta de Kendra Halland e dos próprios Josh Appelbaum e André Nemec – de vez em quando surpreende o espectador ao investir em quadros mais movimentados e dinâmicos, conferindo uma agilidade visual à obra que ajuda a aproximá-la do espectador.

Na maior parte do tempo, porém, “O Parque dos Sonhos” é uma animação tecnicamente razoável, narrativamente medíocre e dramaticamente artificial. Como se não bastasse, os personagens são aborrecidos e sem personalidade (com exceção dos dois castores gêmeos, que são divertidinhos), o que consolida de uma vez por todas a natureza inócua da produção como um todo.

 

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *