Sobre representatividades

Por Fabricio Duque


A característica principal de um documentário é a de conduzir o espectador por novas perspectivas ao destrinchar informações em uma cirúrgica investigação histórica. Imagine, por exemplo, a responsabilidade da diretora Susanna Lira (de “Torre das Donzelas”), que pautou seu novo filme na improvável vertente de mostrar o outro lado de um comediante de “Os Trapalhões”: sua prévia vivência no mundo sambista.

“Mussum – Um Filme do Cacildis” é muito mais sobre sua existência humanizada (crítica a uma representatividade negra no horário nobre da televisão da Rede Globo) que apenas um retrato de uma personagem incorporada pelo imaginário popular, com bordões e utilização de ofensivas piadas que pensavam o comportamento da época.

Aqui, Susanna quer direcionar a outra representação, Mussum esteve à frente de um dos momentos mais importantes da música brasileira com o grupo de samba jazz “Originais do Samba”, um grupo brasileiro formado na década de 1960 no Rio de Janeiro por ritmistas de escolas de samba, como por exemplo, o sucesso “Cadê Teresa”, de Jorge Ben. O documentário busca mesclar conteúdo e graça, principalmente pela narração explicativa, pautada mais a um espirituoso didatismo, do ator Lázaro Ramos (que também é uma voz de luta à permanência com seu programa “Espelho” no Canal Brasil).

É a trajetória do humorista e sambista Antônio Carlos Bernado Gomes, o “Mussum”, contada de diferentes ângulos. São reveladas facetas mais sérias da figura que foi eternizada no imaginário popular brasileiro por sua participação no programa “Os Trapalhões”. Por trás de sua persona humorística, debochada e extremamente perspicaz, Antônio Carlos mantinha uma rotina de responsabilidades com sua família, projetos e compromissos.

Inicialmente, “Mussum – Um Filme do Cacildis” causa uma barreira e uma distância, talvez porque suaviza o humor escrachado do quarteto de humoristas que aguçava ainda mais o imaginário com piadas populares (normalizadas no passado), mas que hoje causam incômodo, visto que este mundo atual em que vivemos prefere esconder a ter que confrontar, e que sarcasmos (quiçá inteligentes críticas invertidas) não são mais possíveis e agora são consideradas racistas, homofóbicas, sexistas e altamente ofensivas. Mussum construiu outra representativade: dançou a música da adaptação de ser negro, comediante e tudo isso na televisão.

O Vertentes do Cinema resolveu provocar a diretora, ao conversar com os próprios botões sobre o cuidado do que dosar. E fez a pergunta: “Qual o limite de um(a) documentarista?”, que foi respondido com sagaz diretriz: “O limite é o limite que você aguenta, a gente vive um momento que a História está sendo neglicenciada e negada, então temos que contar as histórias”. E complementou que “É o limite de cada um e eu acho que não tenho limites às vezes, mas tudo tem um preço também, é o limite de sua inquietude, até quando eu consigo viver sem fazer isso. Tem filmes que são urgentes e eu preciso fazer, vou lá e faço mesmo em situações adversas”.

“Então Mussum é um filme urgente?”, visto que a representatividade pulula nos questionamos de todos nós. Era um outro mundo, uma outra época muito menos politicamente correta. Xuxa apresentava-se de colante apertado a “baixinhos” crianças. “Sim, Mussum é um filme urgente porque ele é uma representatividade negra na dramaturgia brasileira, uma figura muito importante na nossa cultura, tem uma carreira de músico que ninguém consegue, que é importante dizer, e traz uma discussão também sobre o humor”.

Só que quanto mais o filme acontece na tela e nos olhos do espectador, mais sentimos que “Mussum – Um Filme do Cacildis” está onde precisa estar e que o que se vê é a essência máxima do documentário, que neste caso Susanna Lira, uma diretora metódica e cirúrgica em traduzir suas histórias, com temas delicados de questionamento social, costura emoção e informação, com o cuidado de mitigar o cliché ao máximo, como a violência nossa de cada dia em “Intolerância.doc”; mulheres soropositivas em “Positivas”; entre tantos outros de relevância Histórica, indicando uma nova visão. “Eu privilegio a música sim porque os Os Originais do Samba é o grande momento, é quando ele surge como artista, mas o humor politicamente incorreto está lá: as pessoas chamando ele de macaco, ele se negando ser chamado de negro, eu acho que a embalagem que é diferente, a gente discute de outro jeito”, finaliza a mestre documentarista.

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