Crítica: Minha Fama de Mau

Por Fabricio Duque

Um filme bonzinho demais

Por Fabricio Duque


Biografias literárias transpostas à arte cinematográfica tendem a buscar o tom mais palatável ao grande público, tentando condensar na imagem a fidelidade das palavras. A responsabilidade é grande, porque só os ídolos icônicos são presenteados com a homenagem de assistir em tela grande suas vidas em versões ficcionais.

E traduzir uma existência inteira em menos de duas horas também requer um trabalho árduo, de alto poder de síntese, de elipses temporais e de escolhas. Muitas escolhas. A obra é na maioria das vezes livremente inspirada, isso fornece a seu roteirista uma liberdade de recriar, deturpar e “consertar” ações e consequências.

Outro fator é que esta é uma obra sobre o universo da música brasileira, mais especificamente a Jovem Guarda. “Minha Fama de Mau” aborda existência e obra do “Tremendão” Erasmo Carlos, o compositor e o “amigo de fé, o irmão camarada” de Roberto Carlos, o Rei que anos atrás proibiu que sua biografia fosse vendida após publicação. Sim, é uma decisão arriscada ao diretor: expor sem dor nem piedade a verdade da vida pessoal-histórica ou criar uma novela romanceada, dando mais ênfase nas qualidades que nos erros passados?

“Minha Fama de Mau” opta pela segunda opção acima ao permanecer na zona de conforto e servir conteúdo limitado, ainda que intercale documentos-imagens de arquivos (dos shows, dos acontecimentos mundiais e do Rio de Janeiro da época antiga – de quando começaram – passando por cinemas que era exibido “Xica da Silva”, de Carlos Diegues; e ou por comerciais da “Calça Faroeste”) com a surpresa de seus atores: que cantam de verdade e não dublam os astros.

E ou quando junta interpretações teatrais em ações ensaiadas com uma apresentação em histórias em quadrinhos. Conta-se a história de Erasmo “que achou que seria para sempre”. Da casa de cômodos ao estrelato. E do ostracismo ao retorno do sucesso. De pequenos roubos para sobreviver (e comprar ingressos para show de grupo famoso internacional) ao carro Rolls Royce. Rádio Nacional. Parada de Sucessos. Chiclete de Bola Tremendão. Fãs histéricas à moda The Beatles. “Você vai até onde? E tudo com três acordes, quem diria?”, pergunta-se. “Dar passos maiores?” Talvez o “Quem tem medo da verdade?”.

Na Tijuca da década de 1960, este jovem (o ator Chay Suede) alimenta uma paixão: o Rock and Roll. Fã de Elvis Presley, The Platters, Bob Darin (o ator Hugo Bonemer, que tenta um inglês com “Eramês”) Bill Haley e Chuck Berry, ele aprende a tocar violão enquanto vive de sonhos, bicos (pequenos trabalhos) e pequenas delinquências. Passa então a perseguir a ideia de viver da música. Com fama de roqueiro. Há uma inocência espirituosa. Uma pureza curiosa. Um impulso otimista em acreditar que se perseverar, tudo acontecerá. Uma carismática arrogância. Uma crença altiva, incondicional e inquestionável de “seguir o sonho” e o mundo.

Misturando talento e um pouco de sorte, ele conquista a admiração do apresentador de TV Carlos Imperial (o ator Bruno de Luca), um cara influente no meio artístico, e através dele conhece o cantor Roberto Carlos (o ator Gabriel Leone), com quem começa a compor diversas canções. A parceria dá muito certo e o sucesso logo chega, transformando para sempre a vida de Erasmo. Junto também da “ternurinha” (a “arma para enfrentar Celly Campello”) Wanderléa (a atriz Malu Rodrigues). Como já foi dito, os atores aqui soltam a voz e não ficaram com medo da pré-estreia no Rio de Janeiro, que contou com os músicos oficiais. Os reais Roberto e Erasmo prestigiaram a sessão mais que bombada.

Baseado no livro homônimo escrito pelo próprio Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (título de uma de suas músicas mais famosas) tenta modernizar quando transforma as gírias da época (bicho = mano; broto = gatinha; Brotolândia = terra das gatinhas; “cala-te boca”, Mora? = entendeu?) em ultrapassadas caricaturas; e quando interfere com metalinguagem, parte que o narrador, o próprio protagonista ficcional, explica acontecimentos e sentimentos à câmera, que por sua vez somos nós, convidados a participar da “vida que prepara surpresas e tantas reviravoltas”, da Polícia Militar tratada como ingênua em uma versão Charlie Chaplin de ser, da presença do Tim Maia antes do Tim Maia (que há alguns anos também teve sua cinebiografia dirigida por Mauro Lima).

O longa-metragem, dirigido por Lui Farias (de “Os Porralokinhas”, “Com Licença, Eu Vou à Luta”) busca o contexto social com estrutura de uma série televisiva, mascarada ao cinema pela fotografia saturada, por exemplo. Há uma encenação hesitada. Encenada à naturalidade. Talvez por serem atores novos, engessados na imaturidade da projeção do que querem ser. O espectador percebe o esforço em interpretar. Técnica demais. O que foi dito na crítica de “Creed II” cai como uma luva aqui: “O cineasta soviético Sergei Eisenstein, em “O Sentido do Filme”, define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. Sem esforço para representar o próprio sentimento, é possível suscitá-lo pela reunião e justaposição de detalhes e situações deliberadamente selecionadas entre todas as que primeiro se acumularam na imaginação, rumo à formação e intensificação da emoção”. Não é uma simples crítica construtiva, mas um conselho. “Desanima não”, estimula-se.

“Difícil manter o sonho”, diz-se. Sim, e como é. A mãe sonha com um emprego de “futuro”. Ele “defende-se” com pesadelos. Roberto Carlos aparece como um “cometa” na casa de Erasmo. A sorte bate a sua porta. E entra. Pois é, tudo é urgente e imediato. Sem tempo para silêncios e aprofundamentos.

“Minha Fama de Mau” é fisicamente orgânico. A moda era camisas abertas, pêlos aparecendo, costeletas. A indústria fonográfica também estava ávida por novidades. Swing; Iê, Iê, Iê, “pode vir quente que eu estou fervendo”, “gatinha manhosa”, “as curvas das estradas de Santos”. Com a subida da fama, a queda fica mais próxima, principalmente pelos “venenos dos fofoqueiros de plantão”, que com crueldade e hostilidade o chamam de “alienante e fútil”.

Erasmo passa por “novos tempos, tribos, sons”. “Tudo começou a degringolar”, diz. E novas fases acontecem. E em todas o mesmo “broto” o acompanha. É sobre a jornada à essência. De se reconectar à esperança. De buscar nas memórias o porquê. Ninguém é perfeito e nada se cria no equilíbrio. O caos renova. E só “é preciso saber viver”.

Um filme que apesar de múltiplas vertentes, cumpre seu propósito de entreter o público pipoca com uma montagem ágil, números musicais de letras icônicas (o cinema em peso cantarolou), atores iniciantes e bonitos. Um filme padrão a nova geração e aos idosos de agora que viveram lá atrás como jovens fora da guarda.

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