Crítica: Memórias Secretas

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Por Fabricio Duque

 

“Memórias Secretas” é um suspense thriller que tem como condução uma misteriosa missão da qual é impossível escapar de seu propósito essencial. A narrativa ambienta um quebra-cabeças, em que as peças são encaixadas ao se desenvolver o próprio filme, colocando o espectador no status quo de um cúmplice curioso. A estrutura da trama busca paralelo com “O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu”, de Allan Karlsson (sem o humor e o absurdo do livro). Aqui, bem mais realista e dramático, o longa-metragem é uma aventura-epopeia de um senhor de idade, “demente” (também sem a leveza e o humor de “Como Se Fosse A Primeira Vez”, de Peter Segal e com Drew Barrymore), e ou “Dory” (de “Procurando Nemo”) que precisa acertar as “contas” com seu passado. No caminho, devido à idade avançada; às limitações (“desordens neuro-cognitivas”); e às fragilidades (e por não “causar” perigo), o protagonista Zev (“lobo em hebreu”, um judeu que diz que “não se pode odiar música” – mesmo que seja Wagner, a preferida de Hitler) encontra tipos-pessoas (crianças perspicazes “metido à espertinho”, alemães que foram ao campo por serem homossexuais) que o ajudam a “terminar a missão” e encontrar o que tanto desesperadamente procura. Em “Mentiras Secretas”, talvez, o real protagonista seja a música e os ruídos que conectam lembranças amargas e medos iminentes (como a sirene de uma pedreira que lembra a do campo de concentração). A história segue seu rumo e a busca continua a cada movimento difuso. O filme cria o seu triângulo pelos detalhes, que convergem a pontos ligados (como um judeu com um revolver Glock austríaco, com a própria roupa do corpo, que é “pego” pelos truques de sua mente – como uma fuga da realidade – um esquecimento com o intuito de não remoer tragédias antigas, e que se vê na “toca do lobo” diante da bandeira nazista “Noite Cristalina” – e por “ainda orgulhosos de serem alemães e que achavam que Hitler estava certo”). Zev (Christopher Plummer), aos oitenta anos, aceita uma missão incumbida pelo seu colega de asilo, Max Zucker (Martin Landau) de deixar o local em que vive em busca de um antigo guarda nazista. Seu objetivo é, mesmo após tantas décadas, puni-lo pelo assassinato de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Zev segue as regras da carta escrita por seu amigo “descobrindo” mentiras que de tão repetidas acabaram sendo acreditadas e dadas como verdades, e lidando como um “guerreiro” sobrevivente com as falhas de memória. Porém, quando esses truques-confusões são revelados, o espectador recorda de quem dirigiu o filme. E assim é reverberado uma das características de seu diretor canadense-egípcio Atom Egoyan (ou Yeghoyan – de “À Procura”, “Sem Evidências”, “Preço da Traição”, que nestes adquiriu um final mais hollywoodiano e óbvio, diferente por exemplo de “Ararat” e “Doce Amanhã”): de “ir com muito sede ao pote”. Assim, todo o tempo construído perde o ritmo prestes a finalizar, quase de modo apelativo ao clichê de efeito. De maneira nenhuma, “Mentiras Secretas” é ruim. Pelo contrário. Porém, seu início e meio é infinitamente superior e qualitativo a seu encerramento. Por mais que seja necessário, quase obrigatório de se ter na fechamento da história no “grand finale”, a forma conduzida beira uma direção preguiçoso, como se seu cineasta despendesse muita energia até pouco antes de seu final e “morresse na praia” (ou no “campo” – perdoe-me o trocadilho infame). Assim, toda construção de seu desenvolvimento “estaca” no que deveria ser a libertação-redenção-salvação de toda uma existência. E ainda que o roteiro subverta a própria trama e tente surpreender o espectador com uma “genial” e “inventiva” reviravolta (sim, funciona!), e ainda mais com um final direto, mesmo assim, o andamento já “entrou” no chamado “bola de neve” (a de repetir a invenção até que a torne um gatilho comum e um “tiro no pé” – perdoe-me de novo outro trocadilho). Concluindo, “Memórias Secretas” é muito mais sobre o processo da “limpeza da alma” que o tema do nazismo propriamente dito. E isto não incomoda. Tampouco a estrutura de novela linear. Um bom filme que apenas falta um grande final.

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