Precisamos Falar Sobre Miles

Por Fabricio Duque


Gênero cinematográfico é a forma utilizada para se distinguir e catalogar tipos de filmes em comédia, drama, romance, por exemplo. Cada um possui características próprias definidas. Uns são para rir, outros chorar e até mesmo há os híbridos que conjugam variados gêneros em uma mesma obra.

No de terror, uma ficção especulativa, a intenção é causar medo, procurando uma reação emocional negativa dos espectadores com os medos primários do espectador. Sim, a estrutura é a mesma, contudo, o desenvolvimento da trama pode alçar infinitas conduções, tudo graças à criatividade de seus roteiristas e da construção cênica de seus diretores.

Em “Maligno”, do diretor Nicholas McCarthy (de “Pesadelos do Passado”, “Final Vision”), em seu quarto longa-metragem, mergulha o público na atmosfera psicológica sensorial (como o barulho da água da torneira da cozinha e ou pelos detalhes de um passo de cada vez na escada) para abordar a questão da psicopatia no seio familiar. E uma mãe, biológica e incondicionalmente amorosa, faz de tudo para salvar o filho das garras do mal. Tema semelhante já foi abordado em “Precisamos Falar Sobre Kevin”. Se no filme da diretora Lynne Ramsay a história objetiva o tom terapêutico psiquiátrico, aqui, a tradução discorre-se no campo do sobrenatural, pela apresentação da reencarnação.

A religião espírita acredita que reencarnação é “o processo pelo qual o espírito, estruturando um corpo físico, retorna, periodicamente, ao polissistema material”, definição esta da Sociedade Brasileira de Estudos Espiritas. Trocando em miúdos, após a vivência de uma vida, a alma imortal (conservando suas vidas passadas) volta a um novo corpo para cumprir o propósito da existência anterior.

Mas “Maligno” está mais preocupado com o elemento espectral. De consciência cruzada. É o mal que ronda, por obsessores de corpos. O roteiro de Jeff Buhler (de “O ABC da Morte 2”, “O Último Trem”) importa sensações, estimulando suspense e sustos, a fim de criar o paralelismo conectivo. De como uma história se amalgama na outra. Pela heterocromia (um olho de cada cor), “igual ao músico David Bowie”. E pelas mãos.

Preocupada com o repentino comportamento estranho e violento de seu filho “glam rock” Miles (o ator Jackson Robert Scott, de “It – A Coisa”, dirigido por Andy Muschietti), Sarah (Taylor Schilling, de “Argo” e da série “Orange is the New Black”) inicia uma investigação por conta própria para entender o que está acontecendo. Mas o que ela descobre é que alguma espécie de força sobrenatural está agindo sobre ele, influenciando, cada vez mais, suas ações.

“Maligno” consegue conjugar referências a outros filmes deste gênero, como “A Profecia” e “O Exorcista”, sem soar como uma cópia cliché. Há um controle para não se perder, como o artifício da elipse temporal e das fusão da imagem com diálogos de outra cena. A família percebe que Miles é especial. Aprende rápido demais. E aos poucos, mostra sinais de violência e uma crueldade patológica. As coisas começam a ficar estranhas. Ele fala uma língua estranha quando está dormindo tendo “bons pesadelos”. No início, paranoia e fantasia. Depois o perigo real. É uma possessão? Há uma alma de outro ser humano no corpo do filho? Duas almas conflitantes no mesmo lugar?

“Maligno” é também sobre a força da maternidade. Sobre ir além do limite permitido. Entre dúvidas plantadas, discórdias semeadas, manipulações, sobrevivências, hipnoses, mortes e jogos sentimentais, o filme adentra na esfera do “Novo Terror”, que preza mais o sentir que a urgência da carnificina. Porém, seu desenvolvimento desconcerta-se quando opta por explicar demais os significados, causas e consequências. Esse didatismo óbvio e palatável afasta o público da imersão criada. Mas não dura muito.

Assim, “Maligno” caminha pelo abismo de uma questão universal: o da índole do ser humano. Será que o comportamento não pode mudar? Será que estamos fadados a ser eternamente o que sempre fomos e somos? Como explicar essa latente predileção pelo mal? Será que tudo não passou de um inverso jogo? Essas são perguntas que não encontraremos respostas, porque a filosofia é mais complexa e subjetiva que a própria percepção, visto que a mente é estimulada por bilhões de sinapses.

O longa-metragem é uma metáfora da própria criação de uma criança, envolta em um estranho mundo atual, lugar este que tudo é permitido pela expansão do politicamente correto. Quando Miles, um prodígio, um “milagre que domina habilidades”, possivelmente “possuído” cita mentiras como verdades absolutas, o medo de uma punição social prevalece, aumentando o poder dos antes vulneráveis, à moda de “A Caça”, de Thomas Vinterberg, e “Aos Teus Olhos”, de Carolina Jabor. É uma representação de um moderno estágio em que papéis estão invertidos a uma moralidade engessada da opinião pública. Não está fácil para ninguém.

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