Crítica: Mal Nosso

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Um filme que salva e condena

Por Fabricio Duque


O cinema é a arte mais completa, porque consegue estimular nossos cinco sentidos. Alguns acreditam que um sexto é criado. Pelos filmes, o público pode mergulhar em um turbilhão de emoções, específicas de cada gênero. Mas há muito tempo o de terror deixou de ser apenas meramente para assustar e ou causar medo. Cada vez as possibilidades e perspectivas narrativas ganham mais contornos psicológicos e sutilezas detalhistas. E toda responsabilidade recai, lógica e indiscutivelmente, em seu roteirista, o criador e ou adaptador da história e, principalmente, seu diretor, este por conduzir o espectador ao universo objetivado.

“Mal Nosso”, dirigido, montado e roteirizado por Samuel Galli (quase como Alfonso Cuáron em “Roma”), um integrante do subgênero acima por caminhar na vertente do espiritismo, em uma colcha de retalhos de referências de outros filmes, como por exemplo, o tom mais fabular-sombrio do início que alude a “Os Fantasmas Se Divertem”, de Tim Burton, pelos acordes musicais, e ou a atmosfera de M. Night Shyamalan em “O Sexto Sentido” (e o famoso “Eu vejo gente morta”) mesclado com o pop moderno do seriado da Netflix “The Umbrella Academy”, e ou a iminência sensorial de “Suspiria”, de Dario Argento, seus sussurros e vozes do além. E intrinsecamente a “Nosso Lar”, jornada espiritual psicografado por Chico Xavier pelo espírito André Luiz, que chegou às telas nas mãos do diretor Wagner de Assis.

O longa-metragem, que tem categoria de baixo orçamento, informação importante que norteia o público a entender as limitações da importação das ideias à realização propriamente dita, consegue transcender as temáticas características condicionadas e típicas ao adentrar em um violento, sádico e cruel submundo de mal feitores (com ângulos subjetivos de um mórbido Voyeurismo), à moda de Quentin Tarantino com “Old Boy”, da trilogia da vingança de Park Chan-wook, com a presença abstrata da maldade da terceira temporada de “Twin Peaks”, de David Lynch.

Arthur (Ademir Esteves) é um pai zeloso, preocupado com sua filha única, prestes a entrar na faculdade. Ele esconde um segredo desde sua juventude sobre algo que pode ser prejudicial ao futuro da jovem, e para isso contrata os serviços de um serial killer na deep web (a Internet 2.0), lugar que representa o mais obscuro do comportamento humano. Após fazer um acordo com o assassino, Arthur abre as portas para uma jornada mortal envolvendo psicopatas, maldições e demônios.

E é exatamente às duas horas e trinta e dois minutos da madrugada que a preparação realmente é iniciada, talvez esta uma alusão à passagem bíblica de Joel, que diz “E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, pois, conforme prometeu o Senhor, no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento para os sobreviventes, para aqueles a quem o Senhor chamar”.

“Mal Nosso”, que constrói uma ambiência orgânica, blasé e nostálgica (pelo chapéu fora do tempo), aludida a “Apenas Deus Perdoa”, de Nicolas Winding Refn, também um Thriller tecnológico, é sobre a visceral perversidade comportamental do ser humano (que “odeia gente”), como o orgulho em filmar um assassinato. É um mal interno que não acaba nem com a morte, visto que pelo Kardecismo, uma negatividade moral é transformada em uma cósmica obsessão, que permanece instintiva e primitivamente definidora.

Aqui, o público sente um distância quanto à parte interpretativa de seus atores, que dialogam pelo anti-naturalismo, atentos demais ao processo de transmutar verbalmente as palavras do roteiro. Soa frágil e amador, quase preguiçoso. Contudo, esse estranhamento não equilibrado é compensado pela cirurgia das ações técnicas, cujo silêncio ganha mais importância e atenção que instantes narrados e explicados, como a metáfora coloquial do “açúcar e do sal: os dois brancos, iguais e diferentes”, entre bolo e significado de sonhos, ao som da música “Stolen Season”, do The 69 Eyes. “O destino nem sempre é a favor de nossas vontades, há o impacto surpresa”, diz-se.

“Mal Nosso” intercala dois tempos: a digressão do passado e a atualidade do presente, e é um conto metafísico do mundo espiritual que se utiliza do terreno a fim de consertar questões passadas, ajudado por um palhaço de picadeiro de circo, triste por natureza, ensinando, ao protagonista, saídas e vinganças (“sentenças” herdadas). O filme, também, é apresentado nos detalhes, como o quadro-pintura, na casa do assassino, da Escrava Anastácia, uma escrava do século XVIII que usava Máscara de Flandres que permitia à pessoa enxergar e respirar, sem levar alimento à boca. “A gente é como um rádio que recebe energia e frequência diferentes”, diz-se, com novas inserções referenciais, desta vez ao universo lúdico do cineasta Federico Fellini.

O filme explicita mais sua intenção: a de servir como uma mensagem espírita do papel de um médium (“que salva as almas boas e condena as ruins”), quando discursa que “pessoas especiais nascem para ajudar e precisam se sacrificar de tudo” caminhando por “almas puras e entidades negras” (que podemos aludir à cena em que escuros espectros sugam a alma do vilão em “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, de Jerry Zucker), canibalismo, “corpos transitórios”, “carne que não é nada”, luzes que piscam para indicar momentos exorcistas e demônios reais. “A esperança falha, mas o destino não”, finaliza-se.

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