Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Berlim
17 de Fevereiro de 2016

Quando um novo filme dinamarquês sai do forno, principalmente dos criadores do Dogma 95, é inevitável não se esperar um exemplo de parábola-crônica de confronto-moralista. Sim. Mas um dos diretores, Thomas Vinterberg (de “Festa de Família”, “A “Caça”), foi “um pouco” “mordido” e abduzido pela estrutura novela-hollywoodiana de ser, recorrendo aos gatilhos comuns da narrativa mais palatável à audiência. Só que não totalmente. Sua essência livre, solidária, em que seus personagens preferem pessoas à materialidade não se perde. Em “Kollektivet – The Commune”, uma família herda uma casa de uma milhão e resolve projetar uma comunidade coletiva, cujos integrantes ajudam uns aos outros, em reuniões que definem necessidades, contribuições, divisão das tarefas e terapias psicológicas-cognitivas. Na verdade, talvez todo o filme seja a jornada da filha adolescente, que “aprende” na prática a percepção observada-realista pelo silêncio (de não julgar o que ainda não tem conhecimento) de seu crescimento (definir princípios, moralidades, sexualidade, e a segurança de lutar pelo que realmente deseja – em uma atmosfera folk e hippie de Bob Dylan com a nostalgia de Elton John), explícito quando assiste a família conversando no reflexo da televisão desligada. O pai, professor de arquitetura. A mãe, apresentadora de um telejornal. Eles buscam o conceito de “família escolhida” para dividir suas existências. Votam nos recém-chegados, lembrando em muito o filme “O Albergue Espanhol”, só que com adultos de cultura dinamarquesa (reverberando a ironia social aceitável, a praticidade comportamental, a implicância alfinetada de “zoar” a “personalidade” e irritar a paciência, a mitigação da sensibilidade, o humor agressivo e politicamente incorreto – de naturalismo espirituoso ao tratar a polêmica da morte como um garoto de nove anos que sofre do coração – “as garotas adoram isso”). A família “tenta mudar o mundo”, dando a casa aos outros de papel passado e se divertindo pelados, felizes, espontâneos e sem dramas. O conflito acontece. Uma traição que inicialmente não incomoda, corrói ao ponto de se transformar em surtos e tristezas. A simplicidade vivenciada, em certos momentos com câmera próxima e inclusive (insights – sacadas – do movimento Dogma”) como a dança de festejar o Natal em uma escada para que uma árvore não fosse cortada, atinge níveis cômodos, como a “pseudo” aceitação prática e racional da nova “namorada” do marido. Porém no final, o gênero americano “ganha” a “batalha” e assim, “The Commune” descamba ao melodrama e aos clichês, mais básicos e comuns, sentimentais-sensíveis, moralistas e excessivamente humanizados ao encenar o sofrimento de um ser social, que inclui morrer literalmente por uma decepção. Pelo andar da carruagem, dos aplausos da sessão e dos risos intermináveis do júri, sim vi na fileira a frente, talvez seja o favorito ao prêmio, já que agrada “gregos e troianos”.

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