Aceite para entrar, reze para sair

Por Fabricio Duque


Não há nada de errado quando o cinema busca mergulhar o espectador em uma experiência sensorial, metafísica e exponencialmente psicológica, o inserindo em um gênero de situações em extremo limites. Cada microssegundo pode ser o divisor entre vida e morte. Em “Escape Room”, que numa tradução literal é “sala de fuga”, a premissa se repete, parecido com “Jogos Mortais”, só que aqui, respeita-se o livre-arbítrio de cada um. São convidados, apesar de não poderem sair até concluir a prova. Como uma versão moderna e politicamente correta, por uma atmosfera infanto-juvenil, de “Pague para entrar, reze para sair”.

Dirigido por Adam Robitel (de “A Possessão de Deborah Logan”, seu único longa-metragem anterior, e “Insidious: the Last Key” – que também interpreta o personagem Gabe), o filme, um horror psicológico, é uma distante refilmagem adaptada da obra homônima dirigida pelo russo Will Wernick em 2017. No do americano, em questão aqui, nós somos convidados ao entretenimento à moda de “A Origem”, de Christopher Nolan, por complexos e complicados quartos que criam a mortal ilusão da realidade, em um que de “O Show de Truman”, de Peter Weir, com “Kingsman: Serviço Secreto”, de Matthew Vaughn, como a saga “Jogos Vorazes”, iniciada por Gary Ross.

Mas no “Escape Room”, dos roteiristas Bragi Schut e Maria Melnik, daqui nada é brincadeira. Seus “participantes”, por escolha, por curiosidade, por ganância e por uma ingênua crença de proteção, topam embarcar nesta cruel jornada criada por um psicopata e precisam vencer medos, traumas, erros e sobrevivências e potencializar suas habilidades, perspicácias e inteligências para descobrir pistas, novas instruções e saídas. Pode também ser uma crítica social a própria humanidade, quando lemos que “O sistema não muda enquanto você está esperando”.

Passando por momentos complicados em suas respectivas vidas, seis estranhos acabam sendo misteriosamente convidados para um experimento inusitado: trancados em uma imersiva sala enigmática cheia de armadilhas, eles ganharão um milhão de dólares caso consigam sair. Mas quando percebem que os perigos são mais letais do que imaginavam, precisam agir rápido para desvendar as pistas que lhes são dadas.

“Escape Room” ensina em aula o “movimento da ação” e sempre “seguir a luz”. Paralelamente, em uma televisão, o Senhor Miyagi (o ator recém-falecido Pat Morita) ensina na década de oitenta técnicas em “Karatê Kid – A Hora da Verdade”, de John G. Avildsen. “Sempre pense fora da caixa”, “Abra portas”, “Chance para escapar”, são algumas das mensagens. Pulula-se assim parábolas de efeito a fim de ajudar essas pseudo-vítimas, aparentemente vulneráveis e esperando chances. Uma caixa com um cubo misterioso dentro, pode ser uma opção de futuro.

O público também precisa aceitar a proposta. E ao entrar nos damos conta que parece um realista jogo de RPG, a la do seriado “Riverdale”. Nós precisamos montar os quebra-cabeças. Mas sim é um filme hollywoodiano, então as decisões são facilmente resolvidas e suas consequências óbvias, até mesmo a surpresa, esperada. A cada “fase”, nós somos envolvidos no universo do seriado “Westworld”.

O filme é uma sádica experiência-sinestesia, de explorar expansões da mente, como um “Lucy”, de Luc Besson, pela exacerbação do entretenimento dos efeitos especiais, críveis e concretistas. É um “grave” jogo comportamental. De confrontar personalidades e individualidades em claustrofobias. Sentimento de equipe versus um egoísta “idiota”. Uma antropologia com um que “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, de Tim Burton, entre pistas e mais pistas. Em revistas, canecas, paredes e até na seleção dos livros, que inclui “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury.

Seus personagens (os atores Taylor Russell, de “Antes Que Eu Vá”; Logan Miller (de “Com Amor, Simon”, “Antes Que Eu Vá”; Deborah Ann Wolf, a Jessica de “True Blood”; Tyler Labine, “Planeta dos Macacos: A Origem; Jay Ellis, de “Top Gun: Maverick”; e Nik Dodani will, de “Alex Strangelove”) são estimulados a desesperos, surtos, alucinações, confissões e a violar regras contra os “mestres” que estão “observando”. Tudo para o grande prêmio “Big Brother” de ser, no melhor estilo “1984”, de George Orwell.

“Escape Room” é um estudo de caso, que infere a “A Experiência”, de Oliver Hirschbiegel, baseado no romance “Black Box”, de Mario Giordano. Neste, a mórbida saga é mais suavizada, mais sentimental, mais sensível e muito mais padronizada dentro da fórmula de sucesso que a maioria dos americanos seguem em suas criações. Concluindo, o filme atende a seu propósito: divertir com bom entretenimento. “Obrigado por seu serviço!”.

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