Entardecer

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Abaixo do esperado

Por Pedro Guedes


Quando uma produção ganha o Oscar de filme estrangeiro, é natural que todos voltem suas atenções para a pessoa responsável por dirigi-la. O que será que o ganhador daquele prêmio terá a nos oferecer em seu próximo longa, já que, agora, ele foi alçado a um nível de visibilidade bem maior? O sujeito desta pergunta pode ser o húngaro László Nemes, que, em 2016, venceu o Oscar por “O Filho de Saul” depois de acumular elogios desde o Festival de Cannes do ano anterior. Assim, é uma pena que seu segundo projeto acabe desapontando – e embora não seja particularmente ruim, “Entardecer” não faz jus à expectativa criada em torno de seu diretor.

Escrito pelo próprio Nemes ao lado de Clara Royer e Matthieu Taponier, o roteiro situa a trama em 1913 e acompanha Irisz, que, durante a queda do Império Austro-Húngaro, retorna à sua cidade natal, Budapeste, e decide trabalhar na loja que seus familiares gerenciaram por tantos anos. Depois de constatar que um novo dono está tomando conta do estabelecimento, Irisz descobre que o nome de sua família passou a ser extremamente malvisto pelos cidadãos de Budapeste – e o pior: as razões por trás desta infâmia não foram esclarecidas, o que leva a jovem a iniciar uma investigação para entender os porquês deste mal estar.

Fortalecido pelo ótimo trabalho de recriação de época, “Entardecer” é um filme que poderia facilmente ceder ao exagero, mas que surpreende ao manter-se fiel ao estilo daquele período específico de maneira sutil e sem chamar a atenção para si – o que, claro, é mérito do designer de produção László Rajk e da figurinista Györgyi Szakács, que levam o espectador a compreender a lógica visual daquele período sem dependerem de apelações. Além disso, a direção de László Nemes segue alinhada ao padrão que o cineasta já havia definido em “O Filho de Saul”, construindo planos que se alongam a ponto de dispensarem cortes e mantendo a câmera constantemente inquieta e próxima ao rosto da protagonista (às vezes, capturando parte do seu ponto de vista). E o estilo de Nemes volta a se mostrar funcional, já que ajuda a imergir o espectador no universo diegético da obra – bom, pelo menos no que diz respeito à estética.

Por outro lado, se Nemes toma algumas decisões que favorecem a atmosfera da narrativa, existem também algumas escolhas rítmicas que acabam comprometendo – e muito – o resultado final: construindo uma série de sequências que se alongam desnecessariamente e que levam o filme a alcançar a exagerada duração de 144 minutos, o diretor mal consegue definir os objetivos dramáticos de várias cenas e, com isso, investe em diálogos que não parecem chegar a lugar algum, perdendo tempo com passagens que pouco acrescentam à narrativa em si – o que também é culpa do montador Matthieu Taponier, que falhou em identificar o que deveria ou não estar no corte final do longa. A experiência, portanto, acaba se tornando mais monótona e cansativa do que precisava, o que é uma pena.

Como se não bastasse, Nemes fracassa em executar aquele que parecia ser seu maior objetivo: se aprofundar nas emoções de Irisz. Na teoria, a maneira como o diretor enfoca a protagonista deveria ser mais íntima, explorando o desconhecimento da personagem em relação ao cenário e aos co-habitantes que estão ao seu redor; na prática, Nemes exibe um distanciamento problemático ao acompanhar a história de Irisz, o que consolida a obra como uma experiência fria demais para fazer jus às suas ambições dramáticas. Aliás, para um filme que lida com uma protagonista que tenta desvendar seu passado, “Entardecer” não é nem um pouco misterioso (na verdade, é até meio desinteressante).

Ancorado ao menos por uma boa performance de Juli Jakab, que encarna com eficiência os conflitos internos de Irisz e sua vontade de resolvê-los (ainda que a direção e o roteiro acabem limitando a expressividade da atriz), “Entardecer” poderia ser um estudo de personagem intrigante se soubesse conter sua própria autoindulgência. No fim das contas, acaba sendo um filme menos profundo do que imagina ser e que não faz a menor ideia do que deveria ter sido posto ou tirado do corte final. Agora, resta torcer para que László Nemes entenda os pontos que fragilizaram este seu segundo longa e faça jus à promessa que surgiu com “O Filho de Saul”.

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