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A Importância do Meio do Caminho

Por Fabricio Duque
O que seria de nós sem a constante “luta” da distribuidora Vitrine Filmes, que possibilita aos espectadores “apreciar” o filme “Eles Voltam”, do diretor estreante Marcelo Lordello? A “fábula de tom realista” abriga-se na estética do cinema de contemplação, reacendendo questões existencialistas do realismo italiano e do silêncio tailandês de Apichatpong Weerasethakul. No filme em questão, é possibilitado às personagens explorar imaginações, pessoas, ideias, vivências alheias, em uma narrativa road movie de acirrada crítica social à pobreza, à solidariedade, à espera do nada e à alienação “aceitável” de se ter tudo na vida. Exibido no Semana dos Realizadores de 2012 e de ter sido eleito o melhor longa do 45ª Festival de Brasília, além de outros festivais internacionais (Roterdã e o New Director’s New Film, em Nova Iorque), “Eles Voltam” chama atenção pela produção de R$ 250 mil reais, provando que se consegue (sim) fazer cinema com pouco dinheiro, utilizando-se da máxima “glauberiana”, que prega “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. O roteiro prefere o tempo presente, não dando importância aos porquês e às causas. A “odisseia” de dois irmãos, principalmente da menina Cris (a atriz Maria Luiza Tavares – que também ganhou um candango), traduz a metáfora da nossa contemporaneidade. Perdida, apática, sem perspectiva de futuro e sem “ideologia”, caminhando de um lugar a outro, só despertando quando a bateria do ipod acaba e não há como carregar. O “forçado” caminha também atinge outra metáfora: a do crescimento. Quando os pais “expulsam” os irmãos (por brigas entre eles) do carro em um posto de gasolina, gera-se então o radical aprendizado de transformar uma pré-adolescente de doze anos (e suas inclinações fantasiosas da idade) a enxergar a própria realidade de sua volta.  Cris permanece no local por um dia inteiro (encarando os medos, o escuro, solidão, tédio) e, sem notícias dos pais ou do irmão, decide percorrer ela mesma o caminho de volta para casa. Despretensiosamente, podemos observar (às vezes pela câmera distante que “impede” nosso envolvimento), a pausa do tempo, e inevitalvelmente questionar pensamentos de “ordem” propositalmente objetivada e “dedicada a concepção de obras de cinema autoral” (já que a ideia inicial era de ser um curta-metragem). “A ‘Odisseia’, de Ulisses foi uma referência muito forte quando escrevi o roteiro”, explicou o diretor. Com não atores, representação das classes e revendo Orlando Senna, Bresson, Truffaut, Rossellini, Hsiao-hsien Hou, Naomi Kawase, Marcelo conseguiu um sincero equílibrio narrativo. Concluindo, um filme que merece ser visto não esperando a volta, mas sim aproveitando a trajetória do meio do caminho. Recomendo.

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