Crítica: Duas Rainhas

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn

Caça-Oscars de época

Por Pedro Guedes


Não adianta: sempre que chega a temporada de premiações, no final de cada ano, surgem uns quinze dramalhões de época que giram em torno de reis, príncipes, duques e/ou condes europeus que têm de lidar com algum romance impossível ou alguma intriga política historicamente importante. E por que estes filmes ainda existem aos montes? Simples: porque costumam chamar a atenção da Academia com mais facilidade – e o resultado disso é uma linha industrial que vive produzindo estas obras o tempo todo, sem conferir uma “alma” a cada uma delas. O mais novo produto saindo do forno é “Duas Rainhas”, um longa feito sob medida com o objetivo único e exclusivo de ser indicado ao Oscar (e conseguiu em duas categorias: Melhor Figurino e Melhor Maquiagem).

Começando com três parágrafos que se encarregam de explicar, por escrito, um contexto que poderia perfeitamente ter sido mostrado com calma e cuidado (como podem perceber, aquela máxima de “mostre, não conte” é descartada ainda nos primeiros segundos da projeção), o roteiro de Beau Willimon se passa no século 16 e conta a história (real) da princesa escocesa Mary, que, ainda bebê, foi prometida a Francis, o filho mais velho do Rei Henrique II, e levada para a França. Depois que o sujeito morre, porém, Mary volta à Escócia e constata que também tem direito ao trono inglês, ocupado por sua prima Elizabeth I. A partir daí, começa uma sequência enorme de intrigas, planejamentos e traições para que Mary destrone Elizabeth.

Resumindo-se a uma série interminável de falatórios e diálogos que oscilam entre a breguice e a pura exposição (não que aquelas personagens não pudessem se comunicar daquele jeito; afinal, é natural que pessoas tão… artificiais conversem de forma tão aborrecida), “Duas Rainhas” não constrói situações dramáticas de maneira particularmente inteligente ou impactante, já que todos os conflitos são apresentados através de frases explicativas ditas da boca para fora – o que só piora quando percebemos a rapidez com que o filme resolve dramas que acabaram de ser apresentados (de que adianta sugerir algo pesado se, na cena seguinte, este “algo” já será desfeito?).

Como se não bastasse, a direção de Josie Rourke faz jus ao roteiro de Willimon – o que, acreditem, não é um elogio: tratando os conflitos dramáticos e os dilemas de cada personagem com frieza e distanciamento, a cineasta mergulha a narrativa em uma atmosfera terrivelmente aborrecida, chata e inexpressiva, transformando os 124 minutos da projeção em um tédio absoluto. Em contrapartida, os momentos melodramáticos do filme são retratados de maneira emocional até demais, atingindo níveis impressionantes de obviedade e tolice – aliás, é curioso que o instante em que Lorde Darnley pede Mary em casamento se revele romântico a ponto de ser acompanhado por uma trilha musical fofinha, como se o próprio filme não percebesse que aquela união se tratava não de uma declaração de amor, mas de uma jogada política.

Protagonizado por figuras privilegiadas que moram em castelos, vestem roupas extravagantes e vivem dando ordens em seus criados/súditos (o que não é particularmente interessante), “Duas Rainhas” pouco oferece às geralmente talentosas Saoirse Ronan e Margot Robbie: a primeira é uma jovem ágil, espirituosa e razoavelmente tolerante, mas que exibe intenções questionáveis; a segunda é uma rainha egocêntrica, grosseira e ainda mais mandona. Para piorar, o filme decepciona ao reservar o encontro entre Mary e Elizabeth para o fim do segundo ato, esquecendo-se de explorar o potencial que havia na dinâmica entre Ronan e Robbie – e preferindo, em vez disso, se concentrar em um monte de conversas tediosas e cafonas.

Eficiente ao resgatar o estilo glamouroso, mas ao mesmo tempo sombrio dos castelos e dos figurinos utilizados naquele contexto específico (e demarcando bem as diferenças entre o reinado inglês e o escocês), “Duas Rainhas” ao menos conta com um ou outro momento favorecido pela montagem de Chris Dickens, que, em certo instante, intercala o baile real com uma ação paralela de maneira elegante e dinâmica. Na maior parte do tempo, porém, o filme consiste em uma experiência desalmada, genérica e monótona demais para deixar qualquer impressão consistente na mente do espectador – o que se torna ainda mais amargo quando consideramos que a única razão para este projeto ter acontecido foi a oportunidade de abocanhar uma ou duas indicações ao Oscar.

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *