A partir das classes para as classes

Por Michel Araújo


Já em seu título, o documentário independente “Diários de Classe” (2017) carrega a dualidade de se tratar não apenas de classes em sentido das salas de aula, como também as classes sociais as quais, seguindo o discurso forte da obra, são selecionadas e marginalizadas pelo sistema jurídico e mesmo pela moral da sociedade. Aqui temos como diários os relatos de três mulheres pobres e negras, parcela da sociedade brasileira a qual é sistematicamente reprimida. As mulheres – Tifany Moura (uma transexual que buscou refúgio em abrigos após ser agredida pelo próprio irmão em casa e na escola), Maria José (uma trabalhadora doméstica que luta para conciliar os estudos com seu emprego) e Vânia Lúcia (presa injustamente, acusada de envolvimento com tráfico) – todas frequentam centros educacionais para adultos. Para além da luta contra o analfabetismo, que por si só já é uma dura barreira social, as três lutam contra suas cruéis condições materiais, e ao longo do filme se mostram plenamente cientes de sua condição de injustiça e da necessidade de resistência.

Primeiro longa-metragem da produtora “Lanterninha Produções” – grupo de empenho social também responsável pela organização de cineclubes em 18 escolas  da rede estadual na Bahia -, “Diários de Classe” (2017) – dirigido por Maria Carolina e Igor Souza – possui um caráter fundamental para o diálogo a que se propõe, que é não se manifestar meramente “para” a comunidade que está retratando, num didatismo unilateral, mas “a partir” dessa comunidade, incidindo nas demandas sociais que a mesma apresenta, e lhe cedendo seu devido lugar de fala. Todas as manifestações das protagonistas – seja de uma consciência de classe, seja de suas culturalidades, seja de um engajamento progressista não apenas tomando ciência dos preconceitos enraizados na sociedade brasileira mas diretamente os enfrentando em debates com os grupos de estudos – mostram uma face das comunidades periféricas e marginalizadas por demais ocultada pela grande mídia: sua evidente e inegável intelectualidade orgânica. 

Formalmente, o documentário inibe a presença ou intervenção dos autores. Ele não é performático nesse sentido, mas rigorosamente expositivo, indo diretamente às situações e às pessoas, sem filtro de mediação ou narração, o que reafirma a proposta mesma da obra de se posicionar em favor da emancipação das classes oprimidas. Estas classes agora recebem seu lugar de fala, possuem seu momento de reflexão, e atestam que compreendem muito bem sua posição ante o restante da sociedade. Na cena em que a professora do curso noturno de Maria José está mediando um debate acerca de um filme que viram sobre a escravidão, a posição da professora muito se assemelha com a dos autores do longa-metragem, de dar um passo atrás e permitir que as alunas mesmas tirem suas conclusões e façam sua reflexões críticas acerca do filme. E o resultado é indubitavelmente positivo. A classe se indigna e revolta com a conclusão de estarem sendo, também, sistematicamente escravizadas. Com a diferença de que, como aponta uma das alunas, hoje em dia “só não tem o chicote”.

Uma obra de pertinência inestimável para os dias atuais, tanto por sua forma e estilo, que vai direto ao ponto, com um olhar sensível e cuidadoso, quanto pelo abastado conteúdo crítico acerca das deformidades sociais que permanecem entranhadas não apenas no Brasil, mas no mundo. Segundo a ativista negra estadunidense Deborah Small (que participa do documentário em palestra às detentas da mesma prisão que Vânia Lúcia), numa entrevista para o jornal brasileiro Carta Capital em 2016: “O problema é que, assim como nos Estados Unidos, há certa negação a respeito da existência de usuários de drogas e dependentes químicos entre os ricos e poderosos, e o foco é sempre a população pobre“. No próprio documentário a ativista leva as mulheres a uma tomada de consciência de que há um poderoso aparelho ideológico que convence as populações pobres e negras de que de fato eles constituem a base da criminalidade, e portanto são “legitimamente” os principais alvos da truculência policial e da discriminação do restante da sociedade. Uma realidade que, segundo Small, é a mesma aqui como lá. “Diários de Classe” é uma necessidade para o cinema, um filme sólido, direto e bem formulado que traz em si a manifestação do povo para emancipar esse próprio povo.           

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