Crítica: Cópias – De Volta à Vida

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Falta de vergonha na cara!

Por Pedro Guedes


“Cópias: De Volta à Vida” é um filme feito em 2018 e pensado para ser lançado nos cinemas. Nenhuma das duas constatações parece verdadeira: contando com uma direção que beira o amadorismo, atuações que fazem jus à ruindade do roteiro e efeitos visuais… bem, inacreditáveis de ruins, o longa soa como uma obra saída dos anos 1990 (ou, no máximo, do começo dos anos 2000) e produzida para servir de intervalo entre uma atração e outra da MTV (isto é, se fosse uma comédia declarada e se durasse uma hora e meia a menos). E o pior: para constatar isso, basta assistir aos primeiros cinco minutos do filme. Como puderam permitir que um troço como este fosse parar nos cinemas – ainda mais em plena segunda década do século 21 – é algo que, honestamente, não consigo conceber.

Escrito por Chad St. John a partir do argumento assinado pelo co-produtor Stephen Hamel, o roteiro já começa nos apresentando ao cientista Bill, que amarga consecutivos fracassos ao tentar realizar o projeto de sua vida: transplantar consciências humanas de corpos recém-mortos para andróides. Chega uma hora em que o dono da companhia para a qual Bill trabalha vê que não vale mais a pena continuar investindo em seus projetos, encerrando de vez o projeto das “cópias” criadas por ele. Mas aí, o sujeito embarca numa viagem de carro com sua família e, no meio de um temporal horroroso, o veículo acaba caindo no rio, matando a esposa e as filhas de Bill – menos, é claro, o próprio Bill (que conveniente). Em vez de aceitar a perda de sua família, no entanto, o cientista decide usar os corpos como cobaias para seu experimento malfadado, ressuscitando a esposa e as famílias através de réplicas.

A premissa de “Cópias: De Volta à Vida”, como podem perceber, está longe – eu diria que a anos-luz – de ser minimamente inspirada, reciclando um conceito (transplantar o cérebro de seres humanos para corpos biônicos) que já foi exaustivamente explorado em centenas de milhares de outras obras (“Ghost in the Shell”, “RoboCop”, “Alita: Anjo de Combate”, obras de Isaac Asimov etc). Em contrapartida, isso não é o suficiente para que um filme se transforme em um fiasco completo, já que até mesmo a mais batida das premissas pode funcionar caso desenvolvida de maneira eficaz – o que não é o caso deste filme, que está mais próximo de um “Transcendence” (aquele desastre) do que dos demais trabalhos que citei neste parágrafo.

O roteiro de Chad St. John, em particular, se sai incrivelmente mal ao apresentar a persona de seu protagonista, os motivos que o levam a fazer o que faz e – o mais grave – a forma como opera aquela máquina que “copia” seres humanos. Em vez de seguir os passos, por exemplo, de “A Origem” (que passa o primeiro ato inteiro estabelecendo cuidadosamente as regras que virão a compor aquela ficção científica), “Cópias: De Volta à Vida” tem início atirando o espectador no meio de uma situação e forçando-o a compreender a lógica daquele universo, a mentalidade de Bill e o modo como os seres humanos ressuscitam sob a silhueta de androides, não exibindo qualquer interesse em desenvolver cada tópico. E o que dizer dos diálogos, que se revelam dolorosamente expositivos ainda na sequência de abertura (“Este sargento está morto, porém sua atividade cerebral permanece ativa. Precisamos fazer isso, aquilo e aquilo outro.”) e conferem um nível de estupidez transcendental a praticamente todos os personagens (notem que a filha de Bill já deixou de ser bebê há um tempo e, mesmo assim, desconhece o significado de palavras como “demissão” e “brutalidade”)?

Protagonizado por um Keanu Reeves inexpressivo, melodramático e involuntariamente engraçado ao lidar com as cenas mais dramáticas (está na hora do ator voltar à pele de John Wick – e ainda bem que voltará, daqui a algumas semanas), “Cópias: De Volta à Vida” impressiona em seus aspectos técnicos, porém não em um sentido positivo: a direção de Jeffrey Nachmanoff, por exemplo, não demonstra qualquer tipo de lógica ao saltar de planos estáticos para planos movimentados e ao alternar entre ângulos retos e ângulos holandeses. Para piorar, os efeitos visuais se mostram ridículos ao ponto de criarem robôs que fazem aqueles do clipe “Kemp”, da banda Millencolin, soarem como os gigantões de “Círculo de Fogo”.

Isso porque a produção foi orçada em US$ 30 milhões (destes, uns US$ 29 milhões devem ter sido torrados em salgadinhos e refrigerantes)! Aliás, parece que a autofagia é uma constante nesta obra, já que o nome próprio Keanu Reeves aparece creditado como um dos produtores. Desta forma, “Cópias: De Volta à Vida” pode ser descrito como um exercício de autoflagelação.

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