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Uma Viola e um Denzel Cercados

Por Fabricio Duque

No novo terceiro filme do ator (creditado em cinquenta e seis trabalhos pelo IMDB) e diretor Denzel Washington (de “Voltando a Viver”, de 2002; e “O Grande Debate”, de 2007), o espectador paga um ingresso e recebe dois filmes. Um alto e um baixo. A trama de “Cercas” aborda a vida existencialista-privada-particular-intimista de um homem (o próprio Denzel) que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, mas que acaba frustrado na vida como um catador de lixo, influenciando a toda família ao redor com suas crenças-comportamentos unilaterais, machistas, intransigentes e inflexíveis, encontrando na esposa um típico exemplar de clássica dona de casa, submissa, condescendente e que abre mão da própria da própria para “aceitar” incondicionalmente a condição imposta por seu marido.

Na primeira parte (até quase seus noventa minutos), “Cercas” (tradução de “Fences”), baseado na premiada peça teatral homônima de August Wilson (que aqui também assina o roteiro), constrói uma narrativa de teatro filmado (propositalmente), com seus tipos personagens adjetivados, característicos e intrinsecamente definidores, que dialogam entre si pela verborragia social em inferidos monólogos compartilhados por outros monólogos, que lembram em muito uma peca do dramaturgo Tennessee Williams.

A fotografia, saturada ao brilho amadeirado (e paisagens naturais de poesia visual), busca condensar uma nostalgia temporal dos anos cinquenta (e as dificuldades em ser negro e mulher – por isso, as cercas que protegem o interno do externo) com uma contemporaneidade concretista em Nova Orleans, aos pés do Rio Mississipi, e aos olhos de quem assiste, este elemento é determinante para nos aprisionar dentro desta “cerca em construção” objetivada e postergada por Troy, nosso protagonista-diretor.

Assim, toda a trama é apresentada, “bombardeando” palavras em um coloquialismo naturalista, principal e magistralmente por seus atores “monstros” em cena: méritos inquestionáveis e irretocáveis do próprio Denzel e de Viola Davis. Os dois dão a condução, a química, a leveza e a suavidade para que os outros coadjuvantes possam permanecer no equilíbrio do nível qualitativo. Tanto que Denzel está indicado indicado a Melhor Ator no Oscar 2017. E Viola Davis, como Melhor Atriz Coadjuvante, que seria principal, se não fosse “Cercas” um gênero de filme de ator. É tudo sobre Denzel.

Troy é um chefe de família afro-americano, que passou por todas as desgraças-tragédias possíveis e imaginadas, e que imprime a co-dependência a sua família com uma excessiva rudeza, toda uma desesperança pré-existente e uma melancólica amargura sem sonhos maiores (apenas de esperar pela morte e sua “foice”). Ele, que assume os erros do passado como uma terapia cognitiva, as culpas e as “pseudo” redenções, impede o filho mais velho de ser músico e o mais novo de ser um jogador de Baseball, papo este esportivo que conduz metáforas e simbolismos da própria história abordada.

Sim, até este momento, assim igual a um jogo de Baseball, a rebatida é perfeita com nota de quatro câmeras. Corta. Então, um novo filme é iniciado quando o conflito se faz presente. Novos detalhes, novas quebras de paradigmas, novas polêmicas têm inserção programada. Nesta segunda parte de ”Cercas”, é pululado clichês e gatilhos comuns de uma pieguice crônica e previsível. É explicitamente perceptível a mudança de tom das interpretações. De todos sem exceção. Da elipse temporal em diante, nos cinquenta minutos restantes, o longa-metragem é ladeira abaixo com suas emoções manipuladas e dramas excessivos, tornando-se infelizmente uma preguiçosa colagem de quebras-cabeças.

Mas é aí que nos damos conta, em um insight-digressão salvador, que talvez o que incomode seja o caminho que a vida de seu personagem principal toma. Talvez. De uma perfeição existencialista do início (da família espontânea e feliz do seu modo) a uma destruição terminal do respeito e dignidade. A espera da morte é iminente e esperada, e aos poucos ultrapassa a cerca. Este momento dura pouquíssimo tempo, durante a cena de Troy com seu filho, para depois degringolar até estágios cósmicos, iluminados e espíritas, quase fantasmagórico-religioso. Nesta, a nota só consegue duas câmeras. Então, por conclusão lógica, matematicamente falando, a média das duas partes e dos “dois filmes” apresentados, ganha a cotação mediana final que coleciona três câmeras. Pela excelência completa da primeira parte, em atuações excepcionais e da estrutura narrativa em querer a atmosfera de Martin Scorsese (sem a violência característica), “Cercas” consagra talentos de atores que não fazem esforço algum para demonstrar o ofício que foram feitos.

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