Conversa fiada

Por Pedro Guedes


No meio de uma sala, dois amigos conhecidos discutem uma traição que há muito ocorreu entre um deles e uma ex-companheira. E ali permanecem discutindo, discutindo e discutindo. E discutindo mais um pouco. Isto é o que acontece ao longo dos 75 minutos de “Borrasca” – e se a ideia de resumir o filme inteiro a uma longa conversa que dura pouco mais de uma hora parece interessante ou ousada, a direção de Francisco Garcia acaba não fazendo jus a esta ideia, transformando o longa em uma experiência monótona, esteticamente pobre e que talvez funcionasse melhor se fosse pensada para terminar como uma peça de teatro, não como um filme feito para ser projetado na tela de um cinema.

Dirigido por Garcia a partir do roteiro escrito por Mario Bortolotto (que também co-estrela o projeto, dando vida ao escritor fracassado Gabriel), “Borrasca” provavelmente foi inspirado em uma conversa que algum de seus realizadores teve com um amigo há muito tempo atrás, já que se trata basicamente de uma enorme discussão a respeito de traições, amizades, mulheres, etc. O que dá para dizer, portanto, é que o filme se inicia pouco após a morte de um amigo que Diego e Gabriel tinham em comum – o segundo, porém, se recusou a comparecer ao funeral do sujeito, já que sua ex-esposa o traiu com ele e isto obviamente resultou no fim não só do casamento, mas da amizade com o outro. Enquanto conversam sobre o recém-falecido e sobre alguns casos do passado, Diego e Gabriel se veem no meio de um monte de reflexões.

Que… não chegam a lugar algum. Aliás, os problemas de “Borrasca” já começam por aí: para um filme calcado única e exclusivamente em diálogos, é fundamental que estes contem com algum atrativo – em outras palavras: o conteúdo do texto e o jeito como cada ideia é elaborada deve ser minimamente imaginativa. Se isto não acontecer, o resultado deixa de ser um “papo cabeça” e vira uma conversa fiada – o que, infelizmente, é o caso deste filme. Do início ao fim, Diego e Gabriel vivem recitando informações que, honestamente, são mais do que óbvias, desde os motivos que levaram um a ser amigo do outro (e do recém-falecido) até as mágoas que um sente pelo outro (e, também, pelo recém-falecido). Como se não bastasse, as “elucubrações” de Gabriel, em particular, são retrógradas, machistas e expressivas a ponto de soarem quase como um reflexo daquilo que o próprio Bortolotto pensa a respeito destas questões, o que é preocupante.

Como se não bastasse, a linguagem de “Borrasca” contribui para transformá-lo em uma experiência ainda mais entediante: investindo em um ritmo terrivelmente irregular (sempre que os diálogos parecem prestes a engrenar, eles voltam a se concentrar em… nada), o cineasta Francisco Garcia apela para uma abordagem estética que – como falei no início – parece bem mais adequada ao Teatro do que ao Cinema, sobrecarregando o filme de diálogos expositivos, epifanias apresentadas de maneira excessivamente objetiva e cenas que se dispensam qualquer tipo de deslocamento espacial. Para piorar, Garcia toma algumas decisões irritantes ao enfocar as conversas entre Diego e Gabriel, chegando a saltar o eixo indiscriminadamente em vários (sim, vários!) momentos sem que exista qualquer motivo para isso.

Em compensação, é importante destacar as duas performances centrais, que ao menos tentam injetar alguma energia a um texto particularmente frágil e a uma direção ainda mais aborrecida: retratando Gabriel como um escritor fracassado (olha o clichê aí!) que sente o peso das traições que sofreu no passado, porém raramente se vê disposto a assumir certos erros que possa ter cometido, Mário Bortolotto surge em cena como uma persona amargurada e sem destino – o que é contrabalanceado pela presença de Diego, que, encarnado por Francisco Eldo Mendes, se estabelece como um sujeito igualmente falho, mas que conta com um direcionamento um pouco mais claro para as suas ações.

Eficiente também ao adotar uma paleta de cores sempre cinzenta, sombria e que sempre realça o estado emocional desgastado dos personagens (constituindo, com isso, uma das poucas decisões estéticas que o projeto acerta ao tomar), “Borrasca” ainda assim é uma obra que não parece ter muita noção da linguagem na qual se encaixa e que acaba se consolidando como uma experiência preguiçosa e maçante.

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