Crítica: As Ineses

Por Fabricio Duque

Vidas sem edição

Por Fabricio Duque


Sim. A arte cinematográfica deve sempre transpor barreiras, integrando geografias e nunca as separando por batalhas competitivas. A parceria co-produção da Ancine do Brasil com a Argentina, o filme, da terra dos alfajores, “As Ineses”, é a prova disso. De união de recursos e maestrias, como “Pela Janela”, de Caroline Leone; “Paulina”, de Santiago Mitre; “Vergel”, de Kris Niklison, em cartaz nos cinemas; e, entre tantos outros.

O longa-metragem, dirigido pelo argentino Pablo José Meza (de “Buenos Aires 100 KM”, “A Velha dos Fundos”), busca a essência dos comportamentos sociais para contar sua história, em sua barroca, interiorana e orgânica estética atmosférica, que simplifica o complexo pela liberdade sem filtros de uma ingênua verdade. Suas personagens imprimem uma inocência perdida, igual a crianças em estado puro da sinceridade não defensiva.

Cada um corrobora o material bruto de si mesmo, à moda narrativa do universo Kitsch temático dos filmes do espanhol Pedro Almodóvar com nossos exemplos de “Jeca Tatu”, mas tonificado com o cúmplice humor passivo agressivo, característica comportamental dos nossos hermanos argentinos. Nesta crônica rural, reações e expressões faciais são minuciosas, estudadas e articuladas no limite tênue da insinuação e da histeria. Do silêncio que infere ao barulho que expõe.

O cenário, a divisa com o sul do Brasil, ajuda a construir essa fábula realista pela comédia de situações de uma família que foge dos padrões tradicionais e que por sua vez é a mensagem focal. Em que um incidente do acaso é o responsável por plantar a semente da dúvida, fazendo com que nós espectadores questionemos a verdade essência deste grupo de pessoas que vivem sob o mesmo teto. Um possível erro do hospital desperta possibilidades da maternidade. Ser mãe é afeição ou ligação biológica? Família é o que se escolhe ou vem pronta (por providência divina e ou por ancestralidade comum)?

Além de amigas e vizinhas, Carmen (Brenda Gandini) e Rosa (Valentina Bassi) possuem uma série de estranhas e peculiares coincidências entre si. Elas possuem o mesmo sobrenome Garcia, dão a luz no mesmo dia e seus filhos nascem no mesmo hospital. Mas quando os casais, especialmente seus maridos, Ramón (o brasileiro André Ramiro, de “Tropa de Elite”) e Pedro (Luciano Cáceres) observam as crianças, eles notam que uma troca pode ter sido feita por engano, decidem batizar na mesma igreja com o mesmo padre (o também brasileiro Rafael Sieg) e dar o mesmo nome aos dois bebês para evitar maiores problemas. Inês para cada uma. Inferindo ao filme “As Duas Irenes” de Fabio Meira.

“As Ineses” debruça sua história não objetivando criticar as idiossincrasias de seus personagens. Pelo contrário. A personalidade de ação e reação de cada um é preservada, respeitada e não patologicamente julgada. Sua narrativa escolhe o amadorismo técnico a fim de aproximar o público da caótica intimidade deles. Sem falsos moralismos, sem reviravoltas politicamente corretas, sem sensibilidades clichês.

O que há é a humanização. Almas primitivas que dizem o que pensam, que fofocam sem esconder, que não enganam os sentimentos, que não suavizam os dramas-tragédias e que seguem alienadas em seus cúmplices momentos felizes. O filme é sobre a vida sem edição. De aceitar o que vem. Com um que de “não sei, só sei que foi assim”, dito por Chicó no “Auto da Compadecida”, de Guel Arraes. É uma obra de tipos, assumindo erros como propósitos. A comédia da vida privada.

Contudo, para que se cumpra o protocolo do roteiro, “As Ineses” precisa acelerar bruscamente as guinadas, visto que o filme quer transpassar uma odisseia de emoções em tão curto espaço de tempo, apenas um pouco mais de oitenta minutos de duração. Então, o desenvolvimento-conserto de suas vidas à redenção atropela o próprio ritmo que fora construído. É urgente, abrupto, súbito e afobado. De tacada-supetão. Se acontecesse em outro filme, o resultado seria desastroso. Aqui não. Soa ingênuo, porém dentro de todos os artifícios esperados, não chegando a atrapalhar o caminho ao Grand Finale, que surpreende a todos pela semente da dúvida plantada na última cena. E assim, o filme capta, pela sutileza dos detalhes, a alma da simplicidade de pessoas que potencializam suas simplicidades, sem tatos sociais da boa vizinhança. São diamantes brutos não lapidados. Que aceitam as ordens da vida com um saudoso Amém!

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