Crítica: As Filhas do Fogo

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Um filme que provoca emoções reais

Por Pedro Guedes


“As Filhas do Fogo” pode ser tudo, menos uma obra esquecível ou inócua. Produzido na Argentina e dirigido por Albertina Carri, o filme representa uma experiência que depende muito mais da atmosfera do que da narrativa em si, não exibindo qualquer tipo de ressalva ao mergulhar o público em uma jornada repleta de sequências de sexo graficamente explícitas. Assim, a ousadia do projeto certamente merece aplausos; em contrapartida, o resultado final não é particularmente impecável, já que o conteúdo mostrado pela cineasta é estabelecido de maneira apressada e ainda começa a soar redundante depois de um tempo.

Roteirizado por Carri e por Analía Couceyro, “As Filhas do Fogo” começa apresentando o espectador a um casal de mulheres que se reencontram após um hiato. Enquanto estão retomando o relacionamento, uma delas decide realizar um filme pornô, chamando um número cada vez maior de mulheres para participar da produção (amadora). A partir daí, o longa passa a se concentrar na viagem que as protagonistas farão ao redor do país, parando para filmar as sequências de sexo em várias locações diferentes – e de várias maneiras diferentes, vale apontar. Claro que, no fim, o prazer em si acaba levando as personagens a se descobrirem como seres humanos mais fortes e capazes do que a sociedade tende a imaginar, amadurecendo a forma como convivem e lidam com a misoginia ao redor delas.

O primeiro elemento que chama a atenção em “As Filhas do Fogo” é a atmosfera que Albertina Carri consegue estabelecer para a narrativa: sem sentir a necessidade de construir uma história com começo, meio e fim (embora os três existam, só que de maneira mais sutil), a cineasta constrói sequências longas que impressionam através do nível de realismo que está incutido nelas. Além disso, Carri demonstra uma habilidade notável ao flertar com gêneros diferentes sem sacrificar a premissa inicial do projeto, resultando em uma obra que funciona como drama, estudo de personagem, road movie e relato social/cultural, mas sem nunca perder sua essência crua, íntima e verdadeira. Assim, o longa se define como um exercício de estilo admirável e cuidadoso em seus aspectos formais.

Mas é impossível discutir “As Filhas do Fogo” sem falar sobre… o sexo, tão presente em diversos pontos da narrativa – e, neste sentido, o filme atinge um grau de veracidade que o torna particularmente memorável, já que Carri não se vê forçada a enfocar tais relações de maneira glamourosa. A câmera se mantém sempre tremida e próxima aos corpos das personagens, extraindo os detalhes mais íntimos de cada atuação presente no elenco e priorizando mais os sentimentos (ou o prazer, na plena acepção da palavra) do que o fetiche em si. Da mesma forma, as atrizes não se enquadram necessariamente em quaisquer padrões de beleza, o que faz as sequências de sexo soarem ainda mais verdadeiras, inclusivas e até mesmo humanas.

Por outro lado, chega um ponto em que o roteiro e a direção começam a exagerar na frequência e na duração destas cenas, o que leva o espectador a se sentir cansado depois de tantas sequências similares – e chega um momento em que a obra se torna repetitiva em termos de conteúdo, pois o sexo predomina a maior parte da narrativa sem renovar seu significado. Como se não bastasse, este excesso ainda acaba comprometendo o espaço que a obra terá para se dedicar ao desenvolvimento de certas relações entre as personagens, que passam a cair de paraquedas no meio da história e resolvem seus conflitos particulares de forma excessivamente rápida, sem permitir que o público enxergue arcos muito complexos ou bem definidos.

Pecando também ao alongar-se além do ideal, chegando perto das duas horas de duração sem que estas fossem totalmente necessárias, “As Filhas do Fogo” ainda assim funciona como uma experiência que, mesmo falha e cansativa, provoca impressões fortes no espectador. E, para completar, Albertina Carri encerra a projeção com um plano-sequência que deve durar uns 15 minutos e que acompanha uma ação gigantesca, mas que termina de forma íntima e particular.

Trata-se, portanto, de um desfecho que faz mais do que jus à atmosfera, aos temas e às sensações que o filme havia despertado ao longo de toda a sua construção pregressa. Ou seja: põe um ponto final apropriado à jornada que se desenrolou até então.

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