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Uma Animação Brasileira com História Globalizada

Por Fabricio Duque


Integrante da mostra dinamarquesa Buster no Brasil (que acontece no Centro Cultural do Rio de Janeiro até dia 16 de julho), a animação brasileira “As Aventuras do Pequeno Colombo”, do diretor Rodrigo Gava (do curta-metragem “As Desventuras de Joca”, “Xuxinha e Guto” e criador do estúdio A Labo Cine Digital) , que levou mais de dez anos para ser finalizada, corrobora a máxima de que as obras cinematográficas destinadas ao público infantil não precisam ser necessariamente limitadas à idiotização cultural no que concerne aos acontecimentos históricos-sociais.

O filme, em produção desde 2009, e com direção musical de Ary Sperling, que imprime a técnica da animação clássica digital, quase nostálgica, de imagens estáticas que se movimentam, constrói um universo de referências temáticas (que não se expõem, mas sim pontuam com sutilezas) para desenvolver sua trama. Não há como não percebemos ligações a Disney, da “A Pequena Sereia” e de “Peter Pan” (e seu Capitão Gancho). Realizar uma animação não é nada fácil (principalmente no Brasil). Tudo porque temos vinte e quatro quadros por segundos. Cada um leva horas. E assim, todo processo dura anos.

“As Aventuras do Pequeno Colombo”, como o próprio título exemplifica, é um filme de aventura não didático em um universo lúdico. Aos moldes de “O Segredo dos Diamantes”, de Helvécio Ratton e “Piratas do Caribe”, de Gore Verbinski, a história conta que para tentar salvar sua família da falência, o jovem Cris (Cristóvão Colombo) e seus amigos Leo da Vinci e Mona Lisa vão atrás da lendária ilha de Hi Brazil (“o tamanho da Europa”), que esconde tesouros cobiçados por todos os piratas. Eles só não esperavam ser impedidos pelo cruel povo das águas e sua terrível fera Nautilus. Agora, a batalha dos meninos deixa de ser pelo tesouro e passa a ser para voltar vivos para casa.

Conjugando Conde de Saint-Germain (uma figura mítica que vive a centenas de anos preso em uma caverna – um dos seus últimos trabalhos de dublagem de José Wilker) com Cavaleiros Templários com a “área” de Netuno com uma sereia Mabe (dublado por Isabelle Drummond), filha de Hurakan, Rei do Povo das Águas, que mais parece uma indiana Jasmine “Star Wars” de “Aladdin”, e até mesmo com inferências póstumas a série “Caçadores de Trolls” da Netflix, a animação nos conduz a curiosidades e liberdades poéticas de personagens da História do Mundo.

Há o gigante ruivo, o mapa viking, o aniversário aristocrático, o “tio” vilão (como a bruxa malévola da “A Pequena Sereia”), os “assuntos de adultos”, os perigos do mapa, a coragem, as invenções que não dão certo, as digressões explicativas da trama, o “garoto de pouco fé”, o “cavalheirismo que ainda não morreu”, o bar à moda do musical “A Bela e a Fera” (e o descrente), tudo é apresentado com sacadas perspicazes-sarcásticas, brincadeiras-pilhérias, como o “futuro” da jovem Mona Lisa, como a “genialidade” de Leo, como a curiosa impulsividade criativa (característica dominante das crianças) e como a projeção mágica e ancestral da fantasia (e a imaginação fértil).

Cris aprende que “navios podem dar a volta ao mundo”, que se “foi e fez, não é mais impossível” (a auto-ajuda do pensar que pode ser feito; da “ordem” do pai de “crescer” e não mais sonhar; da ajuda em equipe para salvar o planeta). Sim, o filme é mais ingênuo e inocente, mas precisamos levar em consideração seu público destinado, assim que não adianta potencializar sarcasmos e mil e uma percepções. “O inferno é quente”, diz-se entre monstros do mar, “malucos com coragem” e “criaturas vulneráveis”.

Só que “As Aventuras do Pequeno Colombo” não permanece na superfície. Pelo contrário, aprofunda questionamentos comportamentais-sociais, como o empoderamento feminino (“não sou uma princesa, sou uma guerreira do povo das águas” – rebela-se contra o estágio de “mulher frágil” de ser “só uma menininha” com “homens ignorantes, fantasmas não conta” – “Vocês homens me tiram do sério”), a crítica ao racismo e à escravidão (a criança negra “moleque” que limpa o convés, é mandado pelo Barão, tratada como ladrão e que faz amizade com o branco), a redenção “vento à favor” em creditar ao negro “capoeira” a posse da terra do Brasil e a de descobridor original.

O filme, que participou do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,  também não esquece de alfinetar os “exploradores”, que “destroem”, “orgulhosos”, os lugares por onde passam; de homenagear o faroeste de “Jerônimo”; e até mesmo de desconstruir uma das cenas de “Titanic”, de James Cameron, em que desta vez, quem fica protegido é o “frágil” homem. E assim, nós temos a redenção da arrogância, da percepção do ego destrutivo e da segunda chance à humanidade.

Nas cenas filmadas na época do trabalho, José Wilker conta que não era fácil dar voz a um personagem animado: “A dublagem sempre me pareceu difícil porque é uma coisa muito abstrata. Eu sei o que fazer quando falo e sinto que tenho um corpo, mas quando preciso colocar um corpo na voz tenho muita dificuldade. E aí eu fico criando várias alternativas para saber o qual delas fica melhor neste corpo”.

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