Por Fabricio Duque

 

Há muito tempo já perdemos a ideia pré-definida de que toda e qualquer animação só é produzida e indicada ao público infantil. Nós entendemos agora, por lógica, que é apenas mais técnica cinematográfica a fim de se contar histórias, suavizando o tema polêmico (e ou existencialista) e ou unicamente pelo desejo de experimentar possibilidades visuais de criação. “Anomalisa”, em “stop-action”, é uma delas, e se utiliza das duas questões referenciadas. É um filme que busca a fábula realista de criticar a sociedade e seus comportamentos idiossincráticos pelo viés da fantasia. É como se estimulasse um insight questionador no espectador sem a agressividade do choque, sendo visualmente “fofo”. Aqui, o protagonista exercita a característica mais intrínseca do ser humano: buscar o novo. Quando se sabe que já se tem algo, este algo torna-se comum, plastificado, igual, parecido com tudo que já se possui. A solução é procurar a surpresa, a dificuldade, a quebra da própria estrutura equilibrada, assim, inevitavelmente, o caos inicial metamorfoseia com sentimentos libertários, passionais, de visceralidade emocional. “Anomalisa” (amomalia com Lisa) tem sua maestria em seus detalhes que indicam as transições (um viajante de um voo, uma música psicodélica, a incomunicabilidade, a verborragia do preâmbulo, o rosto cortado e mal montado, o taxista tagarela e carente, o sotaque britânico), tudo disseca uma “técnica” (obrigatória) hospitalidade social (e uma praticidade extrema ao se pedir um serviço), em que indivíduos “próximos” se toleram para exercer mais a fundo o exílio de suas individualidades e suas intolerâncias ao outro. Em “Anomalisa”, a epifania do personagem principal é de apatia, resignação (“tudo é chato”), melancólica, que é “assaltado” pela vida privada dos outros e por uma reunião à moda do filme “Amor Sem Escalas”, de Jason Reitman. Mesmo assim, ele tenta um “desengonçado” reencontro com passado, Até que encontra uma bela mulher (auto-depreciativa, feia, não inteligente, gordinha, submissa) mas com uma voz “mágica”, não comum (todas as outras tem entonações e timbres masculinos), mas que de tudo para querer agradá-lo. É inevitável não pensarmos em “O Amor É Cego”. Sim, o roteiro cria a metáfora surrealista de padronizar a existência de um escritor-famoso-palestrante-motivacional de auto-ajuda. Seu “surto cego” faz com que confronte a própria realidade, que cante Cyndi Lauper e que vivencie um encontro meigo, natural, espontâneo, sincero, “estranho, mas verdadeiro”. É daí que a mensagem emerge. Quando se tem, a mente busca subverter a felicidade, gerando o desânimo de se acordar de um sonho esquisofrênico em um pesadelo concretista. Os hábitos começam a incomodar. Depois de tê-la, não é mais especial. Fica tedioso, plástico e a montagem animada reagrupa e separa peças. E na música final “None of Them Are You”, composta pelo próprio diretor Charlie Kaufman (de “Sinédoque, Nova Iorque” e roteirista de “Brilho Eterno de Um Mente Sem Lembranças”, “Quero Ser John Malkovich”, e que co-dirige com Duke Johnson, do seriado “Comunity”) e de Cartel Burwell, o resumo de toda a história com multidões sem rostos (a La “Entre Abelhas”). Concluindo, um filme que incomoda pela competência crítica. Não há como sair impune e insensível da sessão. É outra obra-prima do mestre Kaufman, que sabe conduzir nossa cognição mental a um nível jamais impensado. Um dos primeiros projetos envolvendo nomes famosos ao adotar o crowdfunding, forma de financiamento em que qualquer pessoa pode investir na produção em troca de contrapartidas. Os produtores pediram US$ 200 mil e faturaram o dobro em doações.Recomendado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *