Crítica: A Rebelião

Por Pedro Guedes

Eu já vi isso antes…

Por Pedro Guedes


Cinco minutos. Este é o tempo que “A Rebelião” precisa para convencer o espectador de que o filme, em si, não é dos melhores. Começando com um prólogo que parece copiado e colado de “Fim dos Tempos” ou “Bird Box”, com um grupo de pessoas num carro em alta velocidade enquanto as pessoas nas ruas se veem enlouquecidas e autodestrutivas, o filme encerra esta cena inicial nos apresentando aos alienígenas que servirão de antagonistas para a trama – e, neste instante, o espectador percebe com frustração que o design do vilão representa o auge da falta de criatividade. Em seguida, vem uma sequência de créditos iniciais que poderia ter saído de qualquer filme pós-apocalíptico genérico. Aliás, “genérico” é a palavra que melhor define este projeto.

Dirigido, co-produzido e co-roteirizado pelo mesmo Rupert Wyatt que realizou o bom “Planeta dos Macacos: A Origem”, em 2011, “A Rebelião” se passa numa realidade onde uma raça extraterrestre invadiu a Terra e impôs uma lei marcial para a cidade de Chicago, dividindo a população entre aqueles que se mantém fieis à dominação alienígena e aqueles que sentem a necessidade de se libertar. Assim, a trama passa a se concentrar em Gabriel e Rafe Drummond, dois irmãos que carregam consigo o desejo de promover uma rebelião contra os dominantes extraterrestres – embora, no processo, acabem sendo interrompidos pelo chefe de polícia William Mulligan e por um monte de questões que nem o próprio filme parece entender direito.

Reciclando um monte de conceitos que já foram explorados à exaustão em um milhão de outras obras (invasão alienígena; como a cultura extraterrestre se relaciona politicamente com a cultura terráquea; o pânico de ser escravizado por uma raça desconhecida), “A Rebelião” não consegue sequer desenvolver estas ideias – e embora a chegada dos alienígenas tenha obviamente impactado a vida e a cultura da Humanidade, isto raramente é mostrado pelo filme, ao passo que a burocracia que o governo mantém com os extraterrestres jamais é retratada de maneira particularmente coesa ou interessante. Para piorar, o roteiro de Wyatt e Erica Beeney se atropela ao atirar, no meio da narrativa, conceitos que não haviam sido estabelecidos com cuidado desde o início, deixado o espectador confuso mesmo que o conteúdo do filme, em si, esteja longe de ser dos mais elaborados.

Mas não é só no roteiro que Wyatt decepciona, já que seu trabalho como diretor representa outra grande frustração: limitando-se a emular o estilo de Neill Blomkamp em “Distrito 9”, com a câmera constantemente tremida e simulando uma estética que remete à linguagem dos documentários, o cineasta revela-se incapaz de criar um único momento que, de fato, leve o espectador a se sentir angustiado, engajado ou interessado em conhecer os detalhes daquele mundo “pós-apocalíptico” (o que ocorre não chega a ser um apocalipse, né?). Para piorar, Wyatt ainda falha em imprimir qualquer tipo de dinamismo ou energia à narrativa, o que resulta em uma experiência monótona, sem vida e aborrecida – e não, não estou falando de uma “frieza” que faz parte da proposta do filme; estou falando de chatice mesmo.

Como se não bastasse, “A Rebelião” ainda desperdiça um elenco incrivelmente promissor: Vera Farmiga, KiKi Layne e Ben Daniels, por exemplo, se veem presos a participações pequenas que, mesmo quando acrescentam algo à história, soam rápidas demais para causarem qualquer tipo de impressão no espectador (em outras palavras: os três foram subaproveitados). E se John Goodman encarna um personagem que poderia se tornar ambíguo, mas que acaba alternando entre “calmaria” e “quase antagonismo” dependendo das necessidades imediatas do roteiro, Ashton Sanders se dá mal ao viver um protagonista apático e sem personalidade; o que também se aplica ao seu irmão, vivido por Jonathan Majors.

Desapontando também no design dos alienígenas, que nada mais são do que humanoides cobertos de espinhos (não, sério: vocês conseguem pensar em algo mais sem graça do que isso?), “A Rebelião” é um longa que talvez pudesse conquistar o espectador se desenvolvesse seus temas com o mínimo de cuidado. No fim das contas, porém, o que resta é uma experiência desconexa, genérica e pouco imaginativa – o que só piora quando levamos em conta o ritmo da obra, que faz as duas horas de projeção se arrastarem como se durassem bem mais.

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