Crítica + Artigo: A Mula

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Nem lá, nem cá

Por Pedro Guedes


Não há como negar: Clint Eastwood é um nome que está marcado para sempre na História de Hollywood. Quem não se lembra da imagem imponente do Pistoleiro Sem Nome, que protagonizou a emblemática trilogia de Sergio Leone (“Por um Punhado de Dólares”, “Por uns Dólares a Mais” e “Três Homens em Conflito”)? Ou do detento que lutava para escapar da prisão em “Fuga de Alcatraz”? Ou do policial conhecido como Dirty Harry, em “Perseguidor Implacável”? Além disso, Eastwood também se lançou como diretor e ganhou o Oscar de melhor filme não só uma, mas duas vezes (“Os Indomáveis” e “Menina de Ouro”). Em contrapartida, seus trabalhos mais recentes deixaram a desejar: ao contrário de “Pontes de Madison” e “Sobre Meninos e Lobos”, obras como “J. Edgar”, “Sniper Americano” e “Sully” apresentaram problemas difíceis de revelar, ao passo que “17h15: Trem para Paris” foi massacrado pela Crítica e naufragou nas bilheterias.

O que nos traz ao novo longa de Eastwood, “A Mula”: inspirado na história real de Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que resolveu atuar transportando drogas para o Cartel de Sinaloa, o filme acompanha Earl Stone, um senhor quase nonagenário que também esteve na Segunda Guerra e, hoje, coleciona prêmios pelos seus trabalhos com horticultura. Brigado com sua família e prestes a entrar em colapso financeiro, Earl decide tomar uma decisão, no mínimo, ousada: servir de “mula” para um cartel mexicano (em outras palavras: utilizar sua picape para transportar drogas e ganhar dinheiro com isso). Claro que a decisão representa um risco enorme para o sujeito, mas ele leva isto até as últimas consequências.

A figura imponente que Clint Eastwood desenvolveu ao longo de sua carreira, com a expressão rígida e a postura ereta, desapareceu e deu lugar a um semblante frágil, vulnerável e envelhecido. Isto, inclusive, é o que torna Earl Stone um protagonista interessante, pois vai de encontro com a persona que nos acostumamos a esperar de Eastwood e, de quebra, ainda resulta em um personagem mais humano. Do primeiro ao último instante, Stone surge como uma figura que a qualquer momento pode ser despedaçada – e quando digo isso, me refiro ao seu estado físico, já que as condições emocionais e psicológicas do indivíduo há muito foram dominadas pela culpa, pelo arrependimento e pela dor. No meio disso tudo, existe uma frestinha de esperança que leva Earl a buscar uma forma de se reconciliar com a família e se salvar financeiramente – e Eastwood se concentra em cada uma destas nuances com uma vontade admirável.

Os demais personagens, no entanto, se resumem em dois tipos de figuras: as bidimensionais e as unidimensionais. Observem, por exemplo, como a família de Earl é subaproveitada, com a esposa do sujeito surgindo adoecida desde o princípio ao passo que suas filhas aparecem somente de vez em quando (e sempre mantendo uma expressão aborrecida). Os agentes da DEA, vividos por Michael Peña e Bradley Cooper (repetindo sua parceria com Eastwood, depois de “Sniper Americano”), passam a maior parte do tempo se dedicando a diálogos que oscilam entre a pose viril e a quase irreverência. Para completar, os vilões que compõem o cartel do México exemplificam o estereótipo que já foi explorado à exaustão em outras obras (e na vida real, através da mídia e das redes sociais), constituindo uma visão que certamente reflete a do cineasta.

Que, vale apontar, ao menos tentou conter sua mentalidade habitualmente reacionária – e a quantidade de comentários e momentos ofensivos é bem menor aqui do que em “Sniper Americano”, por exemplo. Não que Eastwood tenha sucesso total em seus esforços: ainda no primeiro ato, quando os agentes interpretados por Peña e Cooper estão em busca de um suspeito de envolvimento com os cartéis, a dupla resolve parar em frente a um bar “frequentado por todos os mexicanos da cidade” e observa o lugar até encontrar uma atividade suspeita (ou seja: a xenofobia é parte do método infalível que eles adotam). Mas em geral, “A Mula” é um filme bem menos engajado politicamente do que poderíamos supor.

E, mesmo assim, funciona razoavelmente bem, já que a direção de Clint Eastwood investe em planos instáveis que mantém o espectador sempre preso ao que está sendo mostrado – em contrapartida, o diretor tenta criar uma atmosfera de urgência que é frequentemente quebrada pelas piadinhas que insistem em entrar nos momentos menos apropriados, ao passo que o roteiro de Nick Schenk (que ganhou o Oscar por “Gran Torino”, também dirigido por Eastwood) peca ao desenvolver várias situações de maneira apressada demais.

Quando a trama está chegando ao seu desfecho, porém, “A Mula” revela um centro emocional que lhe faltava até então, levando o espectador a sair do cinema com a sensação de ter assistido a uma obra que não encanta, mas também não incomoda.


Leia também AQUI o Artigo-Ensaio: Precisamos Falar Sobre Clint Eastwood


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