Crítica: A Esposa

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A esposa que construiu reis

Por Fabricio Duque


Já diz o ditado popular que ao lado de grande homem há sempre uma grande mulher. E quando esta cúmplice incondicional do amor anula a própria vida para que seu companheiro possa brilhar, então ela merece toda glória e valor, e principalmente pena, por doar seu talento a um homem, em uma época machista e hostil a mulheres.

Em “A Esposa”, podemos ir mais longe e ganhar o Globo de Ouro 2019 de Melhor Atriz Drama para Glen Close, que se entrega totalmente a seu papel protagonista de se tornar “invisível”. Sua interpretação é precisa, sutil, delicada, elegante, irretocável, imprimindo psicológicas camadas emocionais a fim de aprofundar a própria existência “guardada”. Mas também sem a força dramática de seu parceiro, nada seria possível. O ator Jonathan Pryce atua com maestria, rebatendo rotinas, idiossincrasias, narcisismos.

Dirigido pelo sueco Björn Runge (de “Happy End”, de 2011), e baseado no romance literário homônimo escrito por Meg Wolitzer, considerado uma “ficção doméstica” (que aborda a “persuasão feminina”) o filme foi exibido no Festival de Toronto de 2017, e só agora chega aos cinemas, e aos olhos das premiações de Hollywood.

O espectador chega a se questionar se este não é uma versão sueca americanizada do longa-metragem francês “Monsieur & Madame Adelman”, de  Nicolas Bedos e Doria Tillier, visto o grau de semelhanças temáticas, incluindo a presença de um jornalista “abutre”. Se lá o tom visava a comédia de situações, aqui existe algo mais com um apuro técnico da intimidade, ainda que teatralizada e engessada dentro de uma forma clássica, “pura”, “ousada” e

“A Esposa” conduz o público pela elegância, pela espontaneidade de um câmera que capta os mínimos detalhes da representação emocional (da química irretocável de seus atores). Sua narrativa faz inferir a estéticas cinematográficas de “Brooklyn”, de John Crowley; “Os Homens Que não Amavam as Mulheres”, de Niels Arden Oplev, “Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman, “O Piano”, de Jane Campion. Só que com um toque a mais. Um casal de atores à altura de suas personagens.

Joan Castleman (a atriz Glenn Close, a eterna “Atração Fatal”) é casada com Joe Castleman (Jonathan Pryce, de “Cala a Boca, Philip”), um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo por causa de um segredo trancafiado há anos. Mas antes o casal viaja para Estocolmo, para a festa de premiação, e a tensão começa a ganhar corpo quando um biógrafo, interpretado por Christian Slater, insiste em fazer um livro sobre a trajetória do escritor. “Escrever é um processo mortificante e doloroso”, ensina ao filho.

“O verdadeiro escritor não escreve para ser publicado; ele escreve porque tem algo urgente e pessoal a dizer; se não escrever, sua alma morrerá de fome”, citando “Ulisses”, de James Joyce. “A Esposa” acontece em quatro épocas. O agora, que acontece em 1992, período em que as pessoas ainda fumavam em cafés, transmite uma nostalgia pausada no tempo (impressa na fotografia de cores pastéis que representam a própria vida), com suas formalidades literárias, aparências sociais e suas metáforas psicológicas, como a tomada aérea da fotografia que quase vira de ponta à cabeça. E é dividido em digressões que explicam as causas do passado de 1958 (o início), de 1960 e de 1968.

Suas personagens, principalmente o casal protagonista, troca de forma cúmplice alfinetadas, “insultos à inteligência” e verdades realistas, perspicazes e resignados limites. “Todos precisam de aprovação”, rebate-se. O longa-metragem personifica a atmosfera da esposa submissa. Que precisa lidar com o marido narcisista, mulherengo “compulsivo”, quase um completo clichê ambulante, apesar de enaltecer prosas “vividas, puras e ousadas”.

É um filme de adjetivos, milimetricamente trabalhados entre frases refratárias versus cruéis. “Arrependeu-se de desistir?”, pergunta-se com veneno. “Não, tinha poucas expectativas como mulher romancista”, responde-se na mais perfeita técnica de suprimir emoções e “fraudes”. E verdades de “entregar sanidade, consciência e inspiração”. “Você não conseguirá nada. Sem migalhas de amargura”, dá o tiro verborrágico de misericórdia. “A minha ocupação é construir reis”, responde à majestade de Estocolmo. Concluindo, seu tempo cadenciado cria a espontaneidade teatral de traduzir a crônica desta família em constantes Discussões de Relacionamentos e frustrações seguras de si. E sim, seu final consiste em provar a força de um passado.

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