Louvável, mas convencional

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2018

Por um lado, “A Costureira de Sonhos” é admirável: ambientado na Índia e enfocando de maneira indispensável os costumes dos conterrâneos, o filme é bem-sucedido ao mostrar a realidade de quem está inserido na cultura do país através de gestos corriqueiros e acerta também ao promover um debate a respeito das condições de quem está submisso ao patronato. Em contrapartida, o mesmo cuidado não se faz presente na maneira como o longa constrói sua narrativa, que é pautada em clichês vistos em centenas de outras produções e, com isso, dilui a força dos comentários sociais que existem na trama, transformando-se em uma obra inofensiva demais para provocar qualquer impacto.

Dirigido e roteirizado por Rohena Gera, o filme se passa na cidade de Mumbai e acompanha a jovem Ratna, que sonha em se tornar estilista e compensa isso se esforçando para ao menos trabalhar como costureira. Ao mesmo tempo, a jovem também é uma empregada doméstica que vive desempenhando a função na casa de Ashwin, o filho de uma família riquíssima que, aos poucos, vai se aproximando de Ratna e desenvolvendo uma relação inesperadamente calorosa. Aí surgem os dilemas éticos: um patrão pode viver um romance com sua empregada doméstica? Além disso, isto serve para refletir as condições socioeconômicas de ambos, já que o contraste entre o empregador e sua subordinada assume um papel tematicamente fundamental.

Infelizmente, isso não anula o fato de tudo em “A Costureira de Sonhos” ser excessivamente convencional: para começo de conversa, releiam o parágrafo anterior e observem a quantidade de clichês presentes no roteiro de Gera (uma jovem que não conseguiu realizar um sonho; um romance impossível e proibido; os dilemas de um casal que não pode permanecer unido porque, além de pertencerem a classes sociais muito separadas, ainda precisam manter uma ética na relação “empregado-empregador”; etc). O problema não está nas situações serem batidas, mas no fato de nenhuma delas ser desenvolvida de forma particularmente nova ou interessante. Mas isso nem é o pior, já que Gera falha até mesmo em estabelecer a interação entre Ratna e Ashwin: parecendo pré-dispostos a se apaixonarem desde o momento em que se conhecem, os dois passam a se relacionar com uma rapidez que incomoda terrivelmente e o desenrolar do romance em si acaba se tornando igualmente apressado.

Como se não bastasse, a química entre os atores é morna e faz o vínculo entre o casal soar ainda menos convincente (embora seja importante destacar que Tillotama Shome se sai bem ao retratar Ratna como uma persona constantemente fechada, como se sentisse presa a um estilo de vida e aos poucos começasse a quebrá-lo). É uma pena, portanto, que um dos elementos mais decisivos de “A Costureira de Sonhos” (o romance entre Ratna e Ashwin) acabe resultando em uma frustração, o que se deve não apenas ao roteiro ou ao desempenho dos atores, mas também à direção de Rohena Gera, que se revela monótona ao investir numa linguagem estética genérica, mais apropriada a uma telenovela do que a um filme feito para ser exibido em tela grande, frequentemente pautada em planos fechados e que não parece disposta a ousar em momento algum.

Em contrapartida, há um elemento específico que ajuda – e muito – ” A Costureira de Sonhos”: sua identidade cultural. Por mais que o roteiro decepcione e a direção se resuma ao beabá dos romances novelescos, a designer de produção Parul Sondh é bem-sucedida ao incluir tradições indianas em diversos pontos dos cenários, ao passo que os figurinos também defendem com propriedade o contexto no qual estão inseridos ao trazerem vestimentas largas, coloridas, adornadas com detalhes sutis e repletas de cordões, tiaras e pulseiras. Assim, o filme acaba ganhando particularidades inerentes à cultura e ao país responsáveis por produzi-lo, o que é digno de nota.

E isto serve para conferir ao projeto uma personalidade que, se dependesse apenas do roteiro, seria inexistente. De todo modo, é importante que o longa ainda se disponha a comentar as relações que o patronato mantém com quem lhe atende, servindo também como uma discussão a respeito da desigualdade social (que, como podem perceber, não é exclusiva do Brasil) e de como os mais ricos, cada vez mais distantes dos mais pobres, estão situados em uma posição eternamente privilegiada. Isto garante que “A Costureira de Sonhos” ganhe alguns pontos, mesmo que a própria cineasta por trás do filme pareça disposta a se sabotar o tempo todo.

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=k97PBikHBFM

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