Começar de Novo
Prosopopeia
Por João Lanari Bo
“Começar de novo”: não, não se trata da novela da Globo, exibida nos idos de 2004 – e inspirada no clássico “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas! O título a que se refere a presente resenha é o do primeiro longa-metragem do norueguês Joachim Trier, realizado em 2006, originalmente conhecido como “Reprise” (não se sabem as premissas que orientaram o distribuidor brasileiro a promover a alteração, ainda mais remetendo à telenovela). O longa-metragem de Trier tem uma ousadia calculada, funcional – mas certamente está longe de assemelhar-se à linguagem televisiva global. Lembra, pelo pique, a nouvelle vague francesa nos seus melhores anos. O diretor estudou na National Film School em Londres e completou alguns curtas antes da estreia: engatou uma carreira bem sucedida na sequência, inclusive dois filmes com os quais alinhou uma “trilogia’ com a produção em tela – “Oslo, 31 de agosto”, de 2011, e “A Pior Pessoa do Mundo”, de 2021.
Não é pouca coisa: ser o autor de uma trilogia significa reconhecimento de crítica e público. Reza a lenda que foi o ator-fetiche de Trier, Anders Danielsen Lie, que deu a senha, ao ler o roteiro do terceiro filme da série: Ele disse: Eu amo o roteiro, mas para mim parece apenas uma continuação. Parece que você está fazendo a terceira parte de uma trilogia de Oslo. Uma crítica compatriota do diretor definiu de forma sucinta a unidade temática que conecta as três produções: a trilogia de Oslo denuncia uma conformidade aparentemente típica da sociedade norueguesa, ao mesmo tempo que, de forma crucial, reconhece conversa fiada, lixo e banalidade como o local onde vivemos as nossas vidas.
Em “Começar de novo”, dois fiéis e melhores amigos, Phillip (Anders Danielson Lie) e Erik (Espen Klouman-Hoiner), aspiram e desejam ardentemente tornar-se escritores – e, ao mesmo tempo, atravessam as turbulências da juventude, ambos nos seus vinte e poucos anos. Turbulências, bem entendido, típicas da classe média de um dos países com maior renda per capita do mundo e altíssimo IDH, índice de desenvolvimento humano. Phillip encaixa um sucesso literário na largada, torna-se estrela ascendente do mundo da cultura: é demais para ele, que se deixa abater por um bloqueio criativo ao mesmo tempo que mergulha numa relação amorosa obsessiva com Kari – vivida por Viktoria Winge, cuja expressividade parece compartilhar uma imago próxima a de Anna Karina, a musa de Godard. Imago: representação de uma pessoa (pai, mãe ou alguém querido) formada no inconsciente durante a infância e conservada de forma idealizada na idade adulta.
Tudo isso desencadeia uma recaída da psicose de Phillip. Internado em um hospital psiquiátrico, recebe o apoio de Erik e amigos – círculo que forma o núcleo da história, acostumado a bravatas machistas, imaturidades que condensam energias e frustrações. Aparentemente à deriva, esse entorno da dupla de protagonistas parece estar ligado a um estado pré-adulto inercial, o qual de alguma maneira contagia Erik e Phillip. Mas a dupla tem suas piéces de resistance: eles cultivam uma estrela oculta da literatura norueguesa, alguém que publicou o primeiro livro aos 20 anos e saiu de cena – o poeta e escritor Sten Egil Dahl, personagem imaginário, contemporâneo do francês Maurice Blanchot (este sim, foi um escritor real, mas de quem existem pouquíssimas fotos – uma delas, tirada em um estacionamento, aparece em “Começar de novo”).
Enquanto Phillip debate-se com o impasse criativo e a impotência de amar, Erik consegue terminar seu livro, que leva o título (pomposo, na visão do editor) de “Prosopopeia”. Um romance cerebral, ironizado em programas de TV e criticado em resenhas de jornais, mas elogiado, o que é mais importante, por ninguém outro que Sten Egil Dahl. O filme não é cerebral como o livro de Erik, mas aposta em alternâncias de linguagem – do cômico para o dramático – para surpreender o espectador. Segundo o diretor, estávamos interessados em explorar sentimentos contraditórios, como a tristeza extrema combinada com a leveza das piadas bobas. A forma do filme, conclui, deve retratar o conteúdo.
“Começar de novo” inaugurou um estilo que se tornou a marca da trilogia: o tempo e sua marcha inexorável é o centro da ação, jovens que vivem suas experiências enquanto correm para o futuro, fugindo ou não das consequências que suas expectativas não cumpridas provocaram. Ambições que não se concretizaram, ou que se realizaram de uma maneira inesperada, e penosa: um sentimento de insegurança, e ansiedade.