Clara Estrela

Clara por Clara

Por Julhia Quadros

Festival do Rio 2017

Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir, ao realizarem um filme sobre Clara Nunes em “Clara Estrela” acertam retratando a vida da cantora de uma forma sensível através de seus textos, interpretados pela atriz Dira Paes, suas apresentações filmadas e suas entrevistas gravadas, além de fotografias, compondo uma visão geral da produção da artista, com um rico material unida a uma visão e um recorte pessoais da cineasta. Clara é retratada como uma mulher talentosa, corajosa e com opiniões e visões à frente de seu tempo, capaz de criar um estilo musical próprio e revolucionário dentro do cenário de Música Popular Brasileira. O roteiro de “Clara Estrela” se desenvolve tanto como uma apresentação cronológica dos fatos, em que as situações da vida da personagem retratada são apresentadas, quanto como uma recordação, trazendo uma pessoalidade muito forte para Clara e sua individualidade, como se esta dividisse com o público sua história pessoal, suas recordações, imagens e fosse possível para quem assiste acompanhar esta revisão de vida e da carreira pela própria cantora. Além disto, a obra é uma oportunidade de revisitar a produção artística de Clara Nunes, contendo trechos de apresentações suas em diversos espaços cênicos e provenientes de muitos momentos de sua carreira, sendo possível ouvir clássicos como “O Canto das Três Raças”, “Conto de Areia”, “Garota de Ipanema”, bem como outros sucessos musicais interpretados pela cantora.

A direção de “Clara Estrela” é bastante competente e lida com a orquestração de muitos materiais de arquivo e alguns planos realizados para o filme, como aqueles em que pés são filmados sob as águas, simulando a caminhada de Clara Nunes. É inteligente a escolha de dar corpo à Clara do presente, a autora das memórias, sem que esta corporificação assuma a forma de uma atriz ou qualquer outra pessoa que não seja Clara. Estes planos são importantes na narrativa do filme para que se construa um tempo presente, porém, eles não comprometem a proposta de que apenas Clara fale por si no filme; pelo contrário, eles sugerem sua presença nos dias de hoje, uma metonímia de seu ser e uma sugestão de eterna presença em corpo, obra e espírito. Tal como ela afirma ao fim: “Se eu tivesse que voltar ao mundo, gostaria de voltar exatamente como agora: mineira, signo de leão, cantora, sofrendo tudo o que já sofri. Valeu a pena.” E Susanna Lira a retrata nos dias de hoje exatamente como ela fora, sem outra imagem que não fosse a própria Clara ou uma representação tão verdadeira quanto a mesma, evocando sua presença nos passos sob as águas, acompanhados por uma saia branca como as que se tornaram tão características da cantora.

Em relação aos materiais de arquivo, é feita uma excelente pesquisa dos materiais deixados por Clara Nunes, neles é possível ter relatos dela mesma sobre a própria vida, a carreira e a construção do estilo musical próprio e como conheceu pessoas importantes para a sua vida, como seu marido Paulo César Pinheiro  ou os parceiros de trabalho e amigos, como Paulo Gracindo, quem Clara já admirava antes de conhecer, Bibi Ferreira, quem, de acordo com ela, era a maior diretora do Teatro Brasileiro  e  Vinícius de Moraes, primeiro artista do primeiro time da MPB a reconhecer o valor da cantora. Ao longo da narrativa, vê-se uma cantora que constrói sua identidade enquanto artista, com influências religiosas, culturais e musicais bem representativas da cultura brasileira. Ao começo de sua carreira, Clara opta por cantar samba, devido ao seu gosto pela brasilidade, porém ao final, repara que já transcendera o estilo e ao mesmo tempo em que se adaptava a diversos estilos musicais do país, trazia sempre algo de seu a todas as canções que cantava.  Além disto, a montagem do filme, de Paulo Mainhardt, entremeando as entrevistas e as fotografias de modo a seguir a narrativa cronológica da vida da cantora reforça o viés memorialístico e confessional, principalmente frente aos planos do presente.

E isto é a característica positiva de “Clara Estrela” (2017) que mais salta aos olhos de quem o assiste. Pois, ao mesmo tempo em que o filme é construído na forma tradicional de um documentário, com arquivos, imagens e informações sobre a vida de uma pessoa específica, no caso, a cantora Clara Nunes, a obra tem, também, um caráter ficcional, pois existe a criação de uma Clara narradora, uma personagem que sai dos arquivos e fala diretamente ao público; possivelmente, como a própria faria. Há a construção de uma narrativa sobre uma artista, que revisa suas memórias, cuja voz se junta à voz da verdadeira Clara Nunes retratada nos documentos e entrevistas. Logo, a produção transforma a figura retratada em personagem e autora, sujeito e objeto de si mesma, sendo este próprio sujeito uma criação ficcional. Esta alternância entre a Clara real, conhecida por todos e apresentada e a Clara personagem, que apresenta torna possível e mais interessante um documentário que é realizado unicamente a partir dos relatos da própria figura apresentada. 

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