Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino
Os espaços e desejos entre realidades
Por Vitor Velloso
“Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino” de Alex Piperno é uma obra de espaços, desejos e imaginações. Um barato curioso no caminho que o fantástico vem tomando no cinema latino-americano, que amadurece certas ideias mas se curva a outros rigores que o fazem ser mais complexo do que parte das conceituações corriqueiras vêm apresentando.
Já venho discutindo aqui no site há bastante tempo como o fantástico tem sido elemento de manutenção de uma representação escapista “colorida” e instrumentalizado em favor do conservadorismo. Trata-se de um dispositivo fundamental para compreendermos parte da própria cultura latina, uma realidade que transa com o absurdo, o sonho ou o delírio. Alguns textos mais apressados, que visam os louros acadêmicos, acabaram direcionando o “movimento” para duas frentes categóricas simplistas: a revolução ou a inclinação reacionária (citando como uma espécie de contraposição à Estética da Fome). Está claro que as coisas são mais complexas do que isso e tratar de maneira unilateral não vai chegar a lugar algum.
Assim, a proposta de “Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino” dá uma nova proposição para a discussão na medida que não se desfaz dos espaços para recorrer ao fantástico ou internalizar uma série de intervenções à esmo. A construção é feita a partir de uma unidade que reconhece a variante de uma paisagem política em consonância com os desejos e o subdesenvolvimento. Não se trata de uma resolução estritamente conservadora, nem mesmo de uma implosão terceiro mundista nessa verve do capital do sonho. É um assalto europeizado dos espaços para uma digressão constante da própria realidade. A forma tem várias propostas que se aproximam de Pedro Costa e não teme que a confusão generalizada seja menos geográfica que apresenta. Por essa razão, o próprio desenho das luzes indicam uma certa instrumentalização dessa relação corpo x espaço, mas sem perder parte da materialidade ali apresentada.
É uma espécie de distúrbio não resolvido. Se por um lado não abandona o materialismo na própria estrutura, recorre a um prognóstico de desejo que nos leva a duas questões:1- assimilação mitológica da cultura latino-americana à representação burguesa. 2- a compreensão do desejo como resolução imposta, tanto pelo filme quanto na sociedade que o mesmo representa. A intenção de “Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino” não é clara e parece estar mais ligada à uma experimentação de espaços que um diagnóstico totalizante das condições de seus próprios sonhos. Como um exercício que finda em si, pouco se pode acreditar na honestidade. A arte pela arte é o simpósio do irracionalismo, que diferentemente do combate ao racionalismo civilizatório, se manifesta como espasmo de delinquência à revelia da subversão. Manifestação última de uma crença que desvirtua o espaço político, o materialismo em representação da realidade, para dar lugar ao cinema de desejos interrompidos.
Por essa razão, não é possível negar uma falsa compreensão da situação latina, mas a inversão feita para criar a “agradável construção cênica” é a transa Sebastiânica com a Europa. Não por acaso o estranhamento gerado pelo filme não se restringe apenas à essa montagem que suspende a localidade, pois os planos procuram esse atravessamento constante de seus personagens. A anamorfose é constante, o delírio é um sintoma e o sonho é a zona de conforto para que essa digressão seja formalizada na tela. A fotografia procura a exposição dos “estranhos encontros” a partir de suas silhuetas, de uma luminosidade direta em seus contornos. A linguagem consegue criar alguns planos interessantes, erupções temporais em meio ao caos espacial. O desejo através dos reflexos, das janelas, de recortes espaciais no mesmo enquadramento. Piperno possui o mérito de conseguir um vislumbre desses corpos em meio à realidade e sua falta, mas não consegue compreender que os desejos surgem de uma necessidade que rompe com seus cenários constantemente filmados. Acredita que essa matéria é suficiente em si, mas o imbróglio da consciência dos personagens é a grande barreira que segue cerceando o fantástico.
“Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino”, exibido na mostra Forum do Festival de Berlim 2020, pode gerar algumas provocações curiosas e dá um certo passo na assimilação do “movimento” para uma questão menos pragmática dessa transa de realidades, ainda que não consiga resolver por onde caminham essas vontades.