Charuto de Mel

Qual é o sabor da revolta?

Por Ciro Araujo

Durante a Mostra de SP 2021

“Charuto de Mel” aparece nesse embaralhado de ressurgimento do gênero coming of age procurando misturar um processo cultural e político complicado e o descobrimento sexual na adolescência. Se Kamir Aïnouz, diretora do longa, recria aqui sua própria experiência, eis uma escrita do “eu” como centralismo. Afinal, na nova leva de filmes independentes que aparece por aí, é tão recorrente a temática autobiográfica. O desafio então é cada obra se sobressair a partir do que é ironicamente uma individualidade do próprio individualismo.

Se o trabalho de Kamir é ao menos baseado em sua própria existência, seria possível então inferir que ali existe também uma delicadeza para se falar sobre os assuntos. Exceto que… não. Na realidade a direção de estreia da parisiense e irmã do outro Aïnouz, o Karim, é contida, até tímida, porém e desengonçada, ressaltando muito sua própria iniciação na cadeira de regente do filme. A própria perspicácia dentro de “Charuto de Mel” é perdida porque a cineasta não empurra mais barreiras além do beabá básico do cinema independente. Sim, é um olhar honesto, mas repete um roteiro convencional a respeito de uma rebeldia. Rebeldia, juventude, Argélia; Albert Camus adoraria ver mais dessa trilogia. A planificação sistemática dessa conversa é o que mais arrasta para trás um filme que possui uma atuação da jovem Zoé Adjani como uma hipnose de momentos. Parece que o brilhantismo a respeito da existência da protagonista se apaga e acende em poucos minutos. O peso do mundo parece cair para a personagem e noutros ela existe para contemplação de paisagem, perde seu próprio sentido.

Num espelho de escolhas contemporâneas de expressão feminina, um female gaze notável se faz presente. As escolhas são de atravessar o masculino num olhar periférico e inclusive genérico. Para isso, as atuações de homens na obra são em sua maioria revoltos no próprio olhar objetificado dos mesmos. “Você é gostosa para uma argelina”. O uso a todo momento de objetos fálicos tanto ironizam quanto também repetem a cultura objetificante que percorre nas personagens de “Charuto de Mel”. Por sinal, são muitos os momentos onde o cigarro fornece a função. A reiteração talvez não faça jus ao próprio filme, inclusive, pois é a partir da submissão e e de seu final tão entreguista que torna a própria jornada de crescimento da protagonista de dezessete anos um fechamento precoce de suas próprias emoções.

Em um avanço pela trama, a troca de perspectivas acontece, tanto em locação – agora, a família burguesa percorre um núcleo periférico, na Argélia – recria muito que não se conseguiu extrair em mais de uma hora de longa-metragem. A personagem da mãe, interpretada por Amira Casar reforça o novo ambiente que funciona como um terceiro e final arco. Claro, parece que todo santo filme argelino precisa falar sobre a Guerra Civil que se deu nos anos noventa e é totalmente justificável tamanha cicatriz que criou no país. De qualquer modo, o transporte feito para o país na trama é muito mais interessante visto que trabalha sob novos olhares. Como um exercício de entendimento para a protagonista, o caráter educacional aqui possui uma tridimensionalidade maior. É uma alteridade prática, imposta precisamente, própria para o contexto tão difícil entre o país africano e o europeu. O momento mais ideal para derramar na tela a autobiografia é nesse e Kamir Aïnouz mostra a noção perfeita para aplicar, apesar de tantos outros momentos anteriores defasados pela evidente inauguração do trabalho da diretora.

A França é um país tradicionalmente revoltada. Dizem por aí inclusive que acontece qualquer coisa e já queimam um carro, uma bandeira. O fascínio pelo cinema de revolta jovial está bem aí. Não é de forma alguma algo genial ou que contrasta dentro da obra. A falta de experiência claramente afeta a própria imagem, mas os toques de direcionamento não são defasados ou simplórios. São apenas… apagados, o que leva a “Charuto de Mel” ser um daqueles chamados de medíocres. Não por serem ruins, afinal o significado da palavra está longe de ser esse. Mas é de um que soa como imobilizado, congelado. Quando se solta, permanece em seu local, o que não soa nem um pouco algo perto do que é o gene adolescente, um gene tão explosivo e absurdista, ilógico porém também lógico. E há aqueles que dizem que é fácil de compreender a adolescência.

Trailer

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