Cézanne e Eu

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn

Não diz muito sobre os biografados

Por Pedro Guedes

Paul Cézanne é um pintor pós-impressionista que nunca foi valorizado em seu tempo de vida e que terminou frustrado de muitas maneiras, ganhando algum prestígio somente após sua morte em 1906; Émile Zola é um autor rico, bem estabelecido e que vivia sendo bajulado por um monte de figuras cínicas ao seu redor. Ambos se tornaram amigos, o que é surpreendente quando consideramos o quão separados estavam de um ponto de vista social e econômico. Isto poderia render uma cinebiografia interessante, mas também poderia facilmente se tornar mais um daqueles filmes clichês sobre “amizades impossíveis” e este tipo de coisa.

O resultado, no entanto, é um meio termo entre estas duas definições: dirigido por Danièle Thompson (“Três Irmãs”), “Cézanne e Eu” é uma obra ao mesmo tempo bobinha demais para se destacar e sisuda demais para agradar ao público médio, limitando-se a um nicho específico que, ainda assim, se decepcionará com os muitos problemas exibidos pelo longa – e isso é realmente uma pena, já que a história em si tinha tudo para despertar no espectador o interesse em conhecer a vida e a obra de Cézanne e Zola. Como alguém que não era familiarizado com nenhum dos dois, devo dizer que terminei de assistir ao filme sem tanto interesse em pesquisar muito a respeito deles.

Os problemas de “Cézanne e Eu” ficam claros ainda no primeiro ato: sem jamais decidir qual dos dois será o real protagonista, o roteiro da própria Thompson exibe uma seríssima dificuldade em estabelecer qualquer foco para a narrativa, já que o equilíbrio entre Cézanne e Zola é completamente desastrado – na maior parte do tempo, o pintor é a figura que ganha mais ênfase, ao passo que o autor é… bem, insípido demais para chamar a atenção do espectador. Assim, o filme salta de um núcleo para outro sem nenhuma lógica, chegando ao ponto de tornar-se anticlimático em diversas ocasiões (quando finalmente estamos começando a nos interessar pelos dramas pessoais de um dos dois artistas, logo estes são interrompidos e somos obrigados a acompanhar outra situação bem menos engajante). E o mais grave é que estes núcleos contam com seus próprios conflitos dramáticos que, muitas vezes, acabam ficando soltos e sem resolução: a interação entre Zola e sua família, por exemplo, nunca é tratada com cuidado, o que é lamentável.

Falhando até mesmo em estabelecer o porquê de Cézanne ter recebido reconhecimento post mortem e de Zola ter se consagrado ainda em vida, “Cézanne e Eu” mal consegue se aprofundar na Arte produzida pelos protagonistas: sim, vemos um pouquinho da antipatia de Cézanne pelo impressionismo, mas só. Como consequência, o elenco acaba sendo sabotado pela superficialidade e pelas indecisões do roteiro, submetendo os dois “Guillaumes” responsáveis por (re)viver os protagonistas a uma tarefa particularmente ingrata: Guillaume Canet pouco tem a fazer com Emile Zola, limitando-se a retratá-lo como um riquinho aborrecido e desinteressante; e Guillaume Gallienne, com seu visual cabeludo e barbudo, até tenta transformar Paul Cézanne num símbolo de amargura intrigante, saindo-se razoavelmente bem ilustrando suas frustrações e suas falhas comportamentais, porém sem jamais atingir todo o seu potencial.

Em contrapartida, a direção de Danièle Thompson tem seus méritos: sim, a cineasta mostra-se incapaz de estabelecer um ritmo minimamente regular para a narrativa, tornando-a monótona e arrastada – por outro lado, a maneira como resgata o espírito da França do século 19 é eficaz, algo que ganha uma força ainda maior graças aos esforços da designer de produção Michèle Abbé-Vannier e da figurinista Catherine Leterrier. Observem, por exemplo, como a distância entre as classes sociais é estabelecida com clareza: a casa e as roupas de Zola compõem um estilo de vida claramente burguês, ao passo que Cézanne vive num cubículo nada confortável e veste roupas quase sempre desgastadas.

Ainda assim, os pontos mais altos da direção de Thompson não compensam os mais baixos, atingindo um nível constrangedor nos segundos finais da projeção, quando nos deparamos com uma tomada aérea horrorosa e que se desloca de um lado para o outro e de cima para baixo sem nenhum senso de espacialidade. Na hora, até cheguei a suspeitar que a cineasta estivesse tentando simular, através do movimento de câmera, o mesmo movimento de alguém que segura um pincel, mas… não, não acho que faça muito sentido. É uma pena.

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *