Casal Improvável | Crítica

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Romance politicamente incorreto

Por Pedro Guedes

As comédias românticas costumam ser vistas com má vontade por boa parte do público – o que é até compreensível, já que muitas obras pertencentes ao gênero preferiram investir em fórmulas batidas, arcos clichês e recursos estéticos cada vez mais datados, sugerindo uma preguiça generalizada que acabou afastando vários espectadores. Nem todas as comédias românticas são assim, claro, mas… os maus exemplos provocaram um cansaço geral. Dito isso, o grande atrativo de “Casal Improvável” é justamente adotar a estética de uma obra corriqueira, daquelas que lotam a “Sessão da Tarde”, porém girar em torno de um casal que parece saído de uma animação de Seth MacFarlane. E se o filme não acerta sempre, ao menos exibe esforços notáveis.

Marcando a terceira parceria entre o diretor Jonathan Levine e o ator Seth Rogen (as anteriores foram “50&” e “Sexo, Drogas e Jingle Bells”), o filme gira em torno de Charlotte Field e Fred Flarsky: a primeira é uma ex-babá que, depois que construir uma carreira promissora na política, está prestes a se lançar numa campanha presidencial; o segundo é um jornalista que vive em investigações loucas, já desbaratando um grupo de neonazistas nos primeiros minutos da projeção. Ambos se conheciam quando mais novos, porém nunca desenvolveram nada… digamos, sério. Mas isso está prestes a mudar agora que os dois cresceram e finalmente se reencontraram, dando início a um relacionamento surpreendente e que ninguém espera que pode dar certo.

Investindo numa aparência “fofinha” que se contrasta à personalidade inadequada dos protagonistas – e criando, com isso, um sentimento de ironia perfeito e que dura do início ao fim –, Levine se sai bem ao investir numa linguagem estética que remete muito à maioria das comédias românticas (com direito a planos declaradamente clichês e a músicas constantemente melosas) e, ao mesmo tempo, lidar com as características pouco pudicas dos protagonistas. Assim, quando o casal está prestes a transar e parece que o momento a seguir será higienizado, logo Charlotte vira e diz algo como “Fode a minha bunda e aperta a minha garganta“, num exemplo engraçado de baixaria que surpreende até mesmo Fred. (Se você se sentiu ofendido com isso… bem, estou apenas citando uma frase presente no filme.)

Por outro lado, existem momentos onde “Casal Improvável” falha em despertar o riso, insistindo em repetir piadinhas bobas, esticando algumas situações além do necessário e soando desesperado em suas tentativas de humor – não é à toa que o filme se torna bem mais longo que o ideal, atingindo duas horas de duração mesmo que a trama em si não precise de tudo isso. Como se não bastasse, há instantes onde o roteiro não parece saber ao certo qual será o “alvo” das piadas, criando algumas gags dispensáveis e que deixam o espectador sem saber se o que acabou de ver/ouvir foi ou não foi ofensivo (honestamente, qual a utilidade daquele “Wakanda Forever!” no final?).

Mas os problemas não param por aí: embora estique desnecessariamente a sua duração, alcançando inchados 125 minutos, “Casal Improvável” ainda assim soa apressado em algumas questões que deveriam ser tratadas com um pouco mais de paciência. Sim, as personas de Charlotte e Fred são estabelecidas de maneira ágil, porém eficiente; em contrapartida, o início da relação entre o casal (ou, pelo menos, daquilo que o filme mostra) soa rápido demais – e isso faz os motivos que uniram os dois tornarem-se… frouxos, quase ininteligíveis. Num momento, eles são amigos de infância que se reaproximaram há pouco tempo; logo depois, já estão se transformando num casal e tendo relações sexuais constantes. É algo que merecia um desenvolvimento mais cauteloso.

De qualquer forma, a partir do instante em que Charlotte e Fred estão juntos, “Casal Improvável” ganha um fôlego inesperado – mérito, é claro, do carisma de seus protagonistas: vivida por Charlize Theron com um timing cômico surpreendente, Charlotte é uma mulher que tenta se encaixar nos padrões esperados de uma presidenciável, mas que aos poucos descobre um lado irreverente que, convenhamos, não deveria ser escondido, tornando a personagem ainda mais divertida e espirituosa; já Seth Rogen transforma Fred num rapaz acostumado a um estilo de vida inconsequente e grosseiro, mas que exibe uma doçura incontestável em seu olhar. E não adianta: quando Theron e Rogen estão juntos, a química entre os dois faz o filme atingir novos ares, levando o espectador a acreditar que aqueles personagens se adoram de fato.

Além disso, são poucas as comédias românticas que trazem o casal central se enfiando numa rave e tomando MD até ficar doidão. E isso certamente fortalece “Casal Improvável”, que, mesmo falhando pontualmente, ao menos traz Charlize Theron e Seth Rogen em performances que conseguem ser sujas e amáveis ao mesmo tempo.

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