Cargo 200

Caixão de Zinco

Por João Lanari Bo

Subi num helicóptero… De cima vi centenas de caixões de zinco
preparados de antemão, brilhando ao sol, belos e assustadores…
Extraído de “Meninos de Zinco”, de Svetlana Aleksiévitch

No cinema, quem arriscou mais na leitura da fissura soviética no Afeganistão foi talvez Aleksei Balabanov (de “Morfina“), precocemente falecido em 2013, com 54 anos. “Cargo 200”, de 2007, baseado em uma história verdadeira – a afirmação é ambígua – ficou instalado por anos em algum compartimento da memória desse diretor que, confessadamente, apreciava filmes radicais. Para ele, como notou um crítico do KinoKultura, a sociedade soviética por volta de 1984 era uma civilização industrial cambaleando à beira do colapso, pela soma de seus vícios políticos, sociais e individuais: um país aterrorizado e infantilizado, contaminado por abuso de álcool desenfreado entre jovens e velhos, total ilegalidade policial, e um governo geriátrico e inacessível. E mais: caracterizado por cultura sombria e hipócrita, intelectualidade arrogante e cínica, desesperança esmagadora de vida cotidiana para as massas, e a geração jovem niilista sacrificada por ambições imperiais no Afeganistão.

A escritora Svetlana Aleksiévitch escreveu, a partir de depoimentos de combatentes, médicos e parentes próximos, um livro demolidor sobre a aventura soviética no Afeganistão, intitulado “Meninos de Zinco”: pergunta-se ela, “o que é bom? O que é mau? É bom matar ‘em nome do socialismo’? Para esses meninos as fronteiras da moralidade são traçadas por uma ordem militar.” O zinco do título faz referência aos caixões que transportavam corpos dos caídos na guerra (cerca de 15 mil). No ocaso do mundo soviético, foi uma guerra, a do Afeganistão, um dos fatores que acelerou a derrocada da União Soviética – uma guerra de difícil convencimento popular, a despeito do controle social e ideológico que o Partido exercia, pelo menos na superfície: a rarefação se insinuava pelas artérias da sociedade. Em uma decisão cheia de hesitações, Brejnev autorizou a invasão do Afeganistão em dezembro de 1979: já estava fragilizado da doença que o mataria, em 1982, quando o trio de pesos-pesados Andropov, Ustinov e Gromyko – respectivamente, Chefes da KGB, das Forças Armadas e do Ministério das Relações Exteriores – persuadiu-o de intervir militarmente no Afeganistão. Afinal, aquele país arcaico se afundava em mais um ciclo de corrupção e golpes políticos, representando um “foco de sério perigo para a segurança do Estado soviético”, logo ali, na fronteira sul da URSS: tratava-se, em suma, de “defender toda a comunidade socialista e os valores do socialismo”.

A lista de traços e signos expostas no filme é cruel, não importa se Balabanov pensou ou não dessa maneira: mas é o que se depreende dos personagens e situações de “Cargo 200”, que espantou espectadores e exibidores, chocou críticos à esquerda e à direita – e levou o prêmio de melhor filme em 2007 da associação de historiadores e críticos de cinema, de Moscou. Está tudo ali: o enredo é uma extrema interseção de frivolidades e sadismos, de metafísica e violência, religião e ateísmo. Ou ainda: uma interseção de Dostoievski e Faulkner, dois autores da predileção do diretor. Assassinatos podem gerar pesadas acomodações na consciência, como nos personagens do escritor russo: a degeneração está impregnada na atmosfera, como nos climas do norte-americano. A visceralidade do filme, entretanto, não está na literatura: está nos espaços, nos tempos e movimentos dos atores, na imprevisibilidade dos cruzamentos e nas pulsões dos personagens. O professor de ateísmo científico – sim, ateísmo científico – é covarde e omisso, e descamba para a fé ortodoxa. O jovem cínico ostenta uma camiseta vermelha e branca com a sigla fatídica – URSS, como se a União Soviética já fosse um objeto de nostalgia – sai à procura de vodca com a melhor amiga da namorada, foge e planeja uma negociata. A amiga é raptada e reencontra, por sua vez, o noivo, sargento-herói no Afeganistão – que surge cadavérico, no caixão de zinco, enquanto ela é estuprada.

As origens do poder soviético se revelam, no desdobramento aleatório narrado em “Cargo 200”, ao transportar a guerra do Afeganistão para a periferia de Leningrado, onde um policial corrupto e patológico comanda as ações. O conflito se interioriza na escuridão da paisagem industrial soviética: trilhos elevados, canos entrelaçados, chaminés, vigas, cabos e torres de resfriamento formam um pano de fundo cruel para o motociclista-policial e sua presa. Depois de quase uma década de hostilidades, lutando contra um inimigo pulverizado em grupos guerrilheiros e apoiado pelos EUA, Gorbachev anunciou que a União Soviética retiraria suas tropas do país, em maio de 1989, independentemente das consequências. Hoje, com a distância histórica, sabemos que a invasão foi um trágico erro de cálculo.

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