Anuncio zazie

Cantochão

O mundo vivente

Por Pedro Mesquita

Durante o Festival Ecrã 2022

Cantochão

Aqueles atentos à programação que o Festival Ecrã tem oferecido nos últimos anos terão de concordar que Vinícius Romero é uma das grandes revelações do cinema experimental contemporâneo. O seu média-metragem “A Densa Nuve, o Seio” foi uma enorme surpresa na edição de 2020 e, no ano seguinte, o curta “bai gosti / eros afogado em lágrimas” e o média “23 Painéis para ‘La battaglia celeste tra Michele e Lucifero’” provaram que aquela estreia bem sucedida não se tratava de sorte de principiante.

O seu cinema é um cinema lírico — cuja recepção crítica até aqui tratou de comparar repetidas vezes ao cineasta experimental norte-americano Stan Brakhage. A comparação é, em certa medida, justificada: ambos realizam um cinema cujo ponto de vista da câmera coincide absolutamente com o ponto de vista do autor. Trata-se de um cinema “em primeira pessoa”, em que, como em Brakhage, as manipulações realizadas na imagem e o ritmo (frequentemente intenso) da montagem buscam retratar o estado de espírito do narrador. Em suma, o cinema lírico dos dois empreende a mímese da consciência.

Dito isso, diferenças fundamentais entre Brakhage e Romero devem ser apontadas. Uma delas se dá na escolha dos materiais: Brakhage trabalhava com película, enquanto que a estética de Romero não poderia ter nascido de qualquer outro lugar que o digital. “A Densa Nuve, o Seio”, por exemplo, é um filme repleto de texturas e padrões visuais — a pixelização, o glitch — alcançadas pela utilização de dispositivos digitais. As imagens são frequentemente exibidas através de uma multiplicidade de telas: enxergamos um quadro dentro do quadro, o que, segundo Romero, foi possível pela refilmagem de imagens exibidas num celular. Outra diferença se dá a nível temático: enquanto o cinema lírico de Brakhage tomava muitas vezes um caráter autobiográfico (é possível lembrar de filmes como “Window Water Baby Moving” (1959) ou “Untitled (For Marilyn)” (1992)), o cinema de Romero parece frequentemente inspirado por obras alheias (“Os Cantos”, de Ezra Pound, são uma referência constante, assim como o poema sacro “La battaglia celeste tra Michele e Lucifero”, que dá nome ao seu média-metragem realizado no ano passado).

“Cantochão”, seu primeiro longa, parece ser o filme de Romero que mais faz jus até aqui às comparações com o cineasta norte-americano. Se as obras anteriores utilizavam um processo de representação que podemos chamar de indireto (a câmera, ao invés de filmar o objeto diretamente, filma um dispositivo de exibição de imagens, este sim revelando o objeto), aqui a estética pixelizada e explicitamente imprecisa do digital parece dar lugar a uma representação mais transparente da natureza. Este é, portanto, o filme mais belo de Romero, segundo uma concepção clássica de beleza pautada na verossimilhança e na harmonia composicional. Os belíssimos planos de flores, frutos, animais, o céu, ainda que visivelmente adulterados, são restituídos com uma clareza e vivacidade plenamente conformes com o despertar espiritual encenado.

Às imagens, junta-se uma trilha sonora que justifica o título do filme: ela se baseia na utilização do canto gregoriano (também chamado de ‘cantochão’), tradicional música sacra cristã. Todavia, os cantos, ao invés de reproduzidos integralmente, são editados — o que lhes confere um adicional de saturação e reverberação — e cortados no ritmo das imagens. Façamos aqui uma breve observação negativa (uma das poucas que se pode fazer a este ótimo filme): eis o trabalho de som mais tímido e, curiosamente, mais desnecessariamente intenso da carreira de Romero até aqui. O seu estilo abrasivo de edição e mixagem de som, por mais que suavizado aqui, parece não combinar totalmente com o tema, de modo que os cortes abruptos parecem mais afetações desprovidas de significância dramática que signos de um movimento espiritual ocorrendo no sujeito narrador. Não à toa os segundos finais são tão satisfatórios: finalmente livre dessa estética da descontinuidade, o filme se conclui de maneira extremamente prazerosa.

Bom, falamos tanto de Brakhage para, no final das contas, chegar numa curiosa observação: talvez a obra à qual “Cantochão” mais se assemelhe, a despeito de todas as diferenças formais, seja aquele outro filme onde encontramos na natureza a evidência de Deus: “All My Life” (1996), de Bruce Baillie. O filme de Baillie se pauta num respeito inabalável pelo ritmo imanente dos objetos filmados (o balançar das folhas, das árvores…), enquadrando todos eles num mesmo plano-sequência que vai de um canto a outro como que levado pela própria força do vento; já o filme de Romero impõe o seu próprio ritmo aos objetos; olha-os rapidamente; olha-os simultaneamente, às vezes, intimidado e maravilhado ao mesmo tempo, como que compelido a olhar para todos aqueles seres de todas as maneiras possíveis. 

“All My Life”, por sua concisão ímpar, merece o status de obra-prima antes de “Cantochão”. Mas o filme de Romero — assim como todos os seus anteriores — deve ser visto, pois conserva um frescor raríssimo nos dias de hoje.

3 Nota do Crítico 5 1

Banner Vertentes Anuncio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.