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Caixa Preta

Terra em transe

Por Pedro Mesquita

Durante o Festival Ecrã 2022

Caixa Preta

Ao início da sessão, um letreiro revela as seguintes palavras, cuja reprodução aqui parece um bom começo de conversa: A Terra é apenas um lugar. Mas nem chega a ser sequer um lugar normal, pois a maior parte do cosmos está vazia. Normal é o vasto e imenso vazio, frio e universal, a noite eterna do espaço em comparação com o qual as estrelas, os seus planetas, já aparecem como algo dolorosamente raro e precioso. Se nos soltassem ao acaso dentro do cosmos, a probabilidade de que surgíssemos no planeta ou mesmo em sua vizinhança seria inferior a uma parte de mil milhões, mil milhões, mil milhões…

O começo de “Caixa Preta”, filme da artista Saskia e do professor e crítico Bernardo Oliveira, toma proporções cósmicas. Em tom existencialista, o filme reflete, neste início, sobre a gratuidade da vida humana; sobre o seu caráter “raro e precioso” (citando as palavras acima). A cena seguinte reforça esta noção: durante alguns minutos, não vemos nada além de uma tela preta — o que, por aproximação, nos remete ao vazio mencionado no início — em cima da qual a banda sonora começa a se destacar. Ouvimos, enfim, a rara e preciosa presença do ser humano. Batuques e cantos surgem, ainda que de maneira oblíqua: os sons estão suficientemente distorcidos e acrescidos de reverberação de modo que só nos resta supor que aquelas vibrações vêm de muito longe.

Este momento nos impacta pela sua improbabilidade: se a existência humana é uma raridade, uma anomalia estatística, e se, apesar disso, o homem levou a sua existência a um tal grau de complexidade a ponto de conceber melodias, ritmos e ritos populares nos quais eles são apresentados, então ela não é nada menos que uma preciosidade. É dessa constatação que se faz a beleza de “Caixa Preta”: as apresentações musicais do filme adquirem um caráter verdadeiramente milagroso, e a imagem de um grupo de percussionistas tocando em sincronia (em um momento posterior do filme), por mais que registrada grosseiramente — provavelmente por um cinegrafista amador —, torna-se impactante justamente por causa desse percurso histórico traçado pelos cineastas.

Por outro lado, não é só de beleza que se faz esta história. Coexistem com essas belas imagens algumas outras, que revelam ao espectador uma violência atroz. No filme, o racismo se faz presente sob as mais diversas faces: a desigualdade econômica, a brutalidade policial, a representação nos meios de comunicação… e, paralelamente ao desenrolar das imagens, a banda sonora lhe faz a devida contribuição por meio de ocasionais depoimentos anônimos de homens e mulheres negras, narrados pelo músico Negro Leo.

O som do filme, inclusive, não deve passar despercebido mesmo pelo mais desatento dos espectadores. O meticuloso trabalho de edição e mixagem costura os diferentes blocos narrativos e as diferentes seções da obra com muita habilidade. A música — proveniente dos mais diversos artistas da história da música negra — quase nunca para, e é frequentemente modificada de alguma maneira: abundam os remixes e os mashups, e as transições entre uma peça e outra amarram-se muito bem, quase como se estivéssemos assistindo à transposição de um set de DJ para o meio audiovisual.

Tanto no som quanto na imagem, um princípio estruturante de “Caixa Preta” é a saturação. O áudio nunca é limpo; as músicas e as vozes parecem sempre acrescidas de algum efeito que as torna excessivamente intensas; as imagens frequentemente parecem distorcidas e desbotadas. Essa saturação ocorre não apenas verticalmente como também horizontalmente: a montagem possui um ritmo acelerado e salta de ideia em ideia com alguma inquietude, rejeitando a tradicional narrativa linear (que um dos narradores chega a criticar, em um dado momento, em favor da experiência do transe). É por isso que, apesar da temática muito bem definida e certa coesão no discurso, o filme nunca se torna a mera exposição de um argumento aos moldes documentais clássicos: a forma desta “Caixa Preta” está muito mais próxima do filme-ensaio.

Isso, todavia, não o torna hermético ou mesmo indecifrável. Apesar do seu aspecto difuso, o filme conserva um certo didatismo: ao contrário dos filmes-ensaios de Godard (para citar um grande expoente do gênero), aqui, imagem, texto e som normalmente estão em concordância, reforçam um ao outro ao invés de promoverem choques entre si. O filme de Bernardo e Saskia é, portanto, menos dialético e menos denso que alguns filmes do diretor francês, mas talvez mais assertivo e inequívoco. E talvez mais prazeroso também.

3 Nota do Crítico 5 1

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