Brighton 4th

O espírito leve de um lutador de sambo

Por João Lanari Bo

Durante a Mostra de SP 2021

Brighton 4th”, dirigido pelo georgiano Levan Koguashvili e lançado em 2021, é um filme cool, no sentido habitual da palavra tal qual ouvimos no cinema, quando alguém se refere à alguma situação amena e reconfortante: relaxamento imediato. O protagonista é cool full time, ex-campeão de luta livre e sambo – esta última definida como arte marcial moderna originariamente desenvolvida na União Soviética no início do século 20, acrônimo que, em tradução livre, pode significar “autodefesa sem armas”. Kakhi, seu nome, carrega o filme nas costas: carrega o irmão que perde o dinheiro mandado pela mulher apostando no futebol, carrega o filho que batalha pelo green card para poder exercer medicina nos EUA, mas perde no carteado a grana que pagaria pelo casamento arranjado. Kakhi, idoso e bem-humorado, abafa e neutraliza qualquer indício de tensão quando se relaciona com seres humanos, sejam histórias mal contadas ou intrigas: no limite pode até sofrer assédio sexual por idosas desocupadas, mas, como é bem casado e cool, passa batido. Além do filho e da mulher, o que ele gosta mesmo é do seu pastor alemão, um simpático animal também cool, nada a ver com cachorros histéricos ou hiper agressivos. Sim, mas Kakhi também manifesta uma certa melancolia prazerosa quando se recorda dos seus momentos de lutador-campeão, mas estes são breves momentos. Ele não é, definitivamente, alguém que chora em cima do leite derramado. Seu pique é ser objetivo e prático, sem caraminholas na cabeça.

Essa interioridade pacífica e resolvida do personagem de “Brighton 4th” sobressai ainda mais pelo fato de que, afinal, estamos na Geórgia: um belíssimo país, rico em tradições culturais, mas afogado em sulcos de conflitos que sugerem uma no end story. Imersa numa região cronicamente instável – Rússia e Turquia, duas potências imperiais, ao norte, Armênia e Azerbaijão, leste, e o mar Negro a oeste – a Georgia atravessou uma linha do tempo tumultuada até chegar em 1991, quando finalmente tornou-se independente da antiga União Soviética, que colapsava. Logo deixou-se levar por uma guerra civil amarga, que durou até fins de 1994 – e, em 2008, desafiou a Rússia de Putin durante dez dias de conflito aberto. Tudo isso com menos de quatro milhões de habitantes: depois dessas turbulências, duas regiões dentro do país, Abecásia e Ossétia do Sul, declararam-se autônomas, apoiadas pela Rússia, com a Geórgia mantendo o controle apenas em pequenas áreas dos territórios em disputa.  Não é uma vida fácil: sujeitos cool, como Kakhi, são obrigados a lidar com situações complicadas para manter o status de tranquilidade. A Geórgia é conhecida por produzir artistas brilhantes, cineastas e pianistas, mas também por ser terra natal de poderosos homens do crime organizado: um deles é Vyacheslav Ivankov, famoso chefe da máfia russa que se gabava de ter conexões com organizações de inteligência em Moscou. Boa parte dos clichês que o cinema globalizado adotou relacionados à máfia russa – indivíduos com surtos de violência disruptivos e arbitrários, absoluto desprezo por qualquer ordenamento legal ou social – provém do perfil de Ivankov.

A boa notícia é que Kakhi não tem nada a ver com isso: mas, no momento em que resolve ir a Nova York ajudar o filho endividado no jogo, tudo pode acontecer. Seu destino é Brighton Beach, bairro no sul de Brooklyn, na área metropolitana de Nova York, conhecida pelas praias e proximidade com os parques de diversões de Coney Island. Economicamente, é uma área deprimida: com o tempo, sobretudo com o fim da URSS em 1991, tornou-se destino favorito na América de imigrantes que falam russo, que podem ser georgianos, cazaques, russos e …mafiosos. A partir da convivência de Kakhi com o universo de emigrados, seus impasses particulares no trabalho e a nostalgia da proximidade emotiva entre as pessoas – é a própria narrativa de “Brighton 4th” que se transfigura e ameniza, permitindo a um humor de leve tonalidade amarga emergir, como o espírito leve do nosso lutador de sambo.

Coney Island é um cenário recorrente nas produções hollywoodianas, geralmente no verão escaldante e lotado de banhistas extraviados: sob o olhar georgiano, filmada durante o inverno, assume o ar melancólico cool de uma produção independente. O poeta Lawrence Ferlinghetti escreveu um 1958 um clássico beat intitulado “A Coney Island of the Mind” (Uma Coney Island na Cabeça) – antes da chegada dos georgianos, portanto. Um trecho do poema diz, em tradução livre:

Uma pomba-anel murmurou numa enseada

Um sino dobrou duas vezes

uma vez para o nascimento

e uma vez para a morte

do amor

aquela noite

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