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Bottoms – Clube da Luta para Meninas

O caráter desvirtuoso

Por Vitor Velloso

Bottoms – Clube da Luta para Meninas

Funcionando entre um misto de ironia de gênero cinematográfico e um “pastelão” inteligente, “Bottoms – Clube da Luta para Meninas”, de Emma Seligman, é um filme que procura transitar entre suas características de humor, permanecendo em um lugar sem a identidade própria que almeja. Em alguns momentos, o longa consegue criar uma série de piadas com características particulares do EUA, seja com o tipo de bullying que vemos nos filmes norte-americanos ou mesmo com os atentados nas escolas. Alguns desses traços cômicos podem desagradar alguns espectadores pelo seu caráter mais sombrio, mas a diretora não assume nenhuma perspectiva mais aguda, sempre se mantendo no campo da exposição rápida e sem um contexto próprio. 

De forma geral, o que sustenta algum interesse ao longo da projeção de “Bottoms – Clube da Luta para Meninas” são as articulações que a narrativa consegue fazer para trabalhar os estereótipos dos personagens com uma acidez mais irreverente, ridicularizando a masculinidade dos jogadores de futebol americano do longa, os interesses dos homens mais velhos, mães solteiras que transam com jovens etc. Assim, Emma Seligman desenvolve seu projeto em uma faixa de limite relativamente estreita, compreendendo que uma vírgula para um lado ou para o outro, seu humor passa a ser ofensivo ou tratar de temáticas pesadas de forma tola. Esse esforço da diretora é visível, especialmente na montagem assinada por Hannah Park, que encerra rapidamente uma sequência que poderia vir a tocar em um ponto sensível da cultura estadunidense. De toda forma, o que é interessante inicialmente aqui é a facilidade com que o filme se desvincula de algumas abordagens “clássicas” de outras películas de ensino médio, especialmente por desvirtuar dessas representações que normalmente centralizam os homens, objetificam as mulheres ou retrata as mesmas como padrões estabelecidos pela sociedade ou cinema. 

Mas isso não é o suficiente para sustentar a experiência de “Bottoms – Clube da Luta para Meninas” que, mesmo lutando contra determinados clichês industriais, assume diversos outros para tentar ser palatável ao público. Desde toda uma estrutura de ápice no jogo de futebol, ainda que desvirtuando, ou um humor físico realmente descompensado, o filme não consegue manter sua ideia de criar uma identidade particular perante o mercado contemporâneo no streaming. Por outro lado, Emma Seligman mantém sua característica de procurar um olhar múltiplo para o gênero da comédia, transitando em distintos universos dos projetos de adolescentes, enquanto assume a violência como uma marca do longa, seja no clube da luta ou na cena final, onde o sangue jorra pra tudo quanto é lado. Não existe uma estrutura dramática que seja desenvolvida até o fim, apenas pequenos gatilhos para serem utilizados em sequências específicas. Por essa razão, existe uma falta de finalização desses supostos arcos de cada personagem, suas sexualidades, dúvidas e futuros. O próprio encerramento assume que não há mais o que ser apresentado nessa história e termina com cantoria, coreografia e um esforço para diminuir a dicotomia que critica ao longo do filme, entre as “padrões” e as “feias e sem talento”, termos da própria obra. 

“Bottoms – Clube da Luta para Meninas” não é um desastre, longe disso, mas talvez se ache mais esperto que verdadeiramente é para fundamentar suas piadas nesses estereótipos e arquétipos, trabalhando com uma superficialidade pouco efetiva na maior parte das situações. Não por acaso, o desenho inicial que é apresentado, que gera algum interesse no espectador, torna-se programático dentro de uma estrutura industrial, mantendo-se mais um projeto de ensino médio, que possui grave dificuldade para encerrar seus arcos e desenvolver suas personagens com algum mínimo de rigor. É um caso sintomático de um filme que procura tanto manter-se paralelo com o clichê, que abraça um lado engessado da própria estrutura, fixando-se em pontos tão frágeis que rapidamente se desestabiliza e cria um abismo entre suas intenções e o projeto em si.  

2 Nota do Crítico 5 1

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