Bosco

Um tesouro perdido

Por Ciro Araujo

Durante o Festival Cine Ceará 2021

Bosco

Olhar para o passado no cinema é um processo tão complicado que chega a ser para poucos. “Bosco” é um exercício assim, um projeto de Alícia Cano que procura visibilizar uma cidade que foi se escondendo ao longo dos anos. Através de escavações de imagens de arquivo, a cineasta parte para a cidade em busca de entrevistar pouco mais de dez habitantes.

Treze. São treze pessoas que moram na vila de Bosco, interior italiano. Ao contrário do que se é normal no cenário cinemático, o lugar existe com vida própria. Cabe então ao documentário conceber a construção de um local que, apesar de ser real, possuir uma áurea fictícia. Serve como dispositivo primário para assombrar o texto com imagens agora fantasmagóricas. O material originário como ferramenta se transforma narrativamente apenas por conta da mudança de seu aspect ratio, isto é, a proporção de tela. Ela aglutina imediatamente à linha temporal, mantendo uma estética quase similar, então se misturando. É uma forma automática de manter a existência própria, o período filmado e o antigo: manutenção da memória.

“Bosco” pode se dividir em dois atos. A apresentação da vila italiana e como a família da diretora se encontra, por hoje morar na região de Montevidéu. Nota-se já de antemão duas formas em que a diretora, Alícia, atua dentro dos dois frontes. Enquanto uma mera arqueóloga, possui curiosidade, uma nostalgia impossível – pois não a sentiu – e revisitando Uruguai, um passado que remonta ao presente e que hoje lida com seu quase fim. Um sabor agridoce, portanto. A diferenciação dessas duas partes é notória, já que a inexperiência encontrada no filmar da autora é clara diante de um local onde nunca esteve. Imagens curiosas, entretanto, mas que se aproveitam muito mais do que se há de registro passado. A produção própria então ainda possui a maior de suas fraquezas. Para a seção mais familiar, existe uma carga emotiva fortíssima, muito provavelmente pela morte recente do avô e como se constrói as imagens. Como uma clara função fora além do campo artístico, serve como terapia para a própria Alícia Cano enquanto monta a película.

Em tom de fábula, a memória e paisagem do povoado percorrem lentamente essa noção, enquanto a própria cidade recebe um aviso da natureza, que a engole. O continente europeu ironicamente possui diversas dessas cidades situadas perto de cadeias de montanhas enquanto somem tanto por processo natural como um envelhecimento e urbanização. Por consequência, muitas famílias latino-americanas tem origens nesses pequenos vilarejos remotos que hoje abrigam pouco mais de uma dezena de habitantes. Cíclico, portanto. Tolstói diz que se quer ser universal, começa a pintar a tua aldeia. Parece que a diretora compreendeu bem tal fala e através de uma pseudo-memória decidiu implementar uma identidade através de duas associações entre os continentes, especialmente pela (também falsa) lembrança contada do avô, Orlando Meloni, que durante a vida inteira viveu em Salto, Uruguai. Para aqueles que não se lembram, o famoso grito, “É tudo verdade!”. Sempre bom proclamar para documentários, é uma obsessão humana extremamente engraçada.

Apesar da inexperiência, “Bosco” capta cenários peculiares e pequenos objetos que em qualquer olhar não seria possível. Através de um processo muito mais pessoal, uma jornada pode assim dizer, é uma forma de afirmar o desejo do voyeur de não apenas imaginar, mas poder ver. Há quem diga que estamos sendo alimentados por imagens, bombardeados pelo que queremos, mas esse interesse para acabar com apenas o mito sempre foi do caráter humano. Apenas existe o maquinário hoje capaz, então perde a magia aquilo que realmente não existe e não se pode imaginar pois não existe. No final, estão apenas entregando um presente final, o fim do mistério. Se alguém quer criticar, possui já sua validez em parte pois alguns podem proclamar que é o fim dos românticos. Existe sempre a possibilidade de deixar uma vila como Bosco repousando, detrás de sua fria neblina e quase engolida por uma natureza que beira o macabro, enquanto apenas aguarda aqueles que a encontram casualmente. Aí sim haverá então uma magia. Para aqueles que só querem sanar a vontade momentânea… Bem, existe uma imaginária cidade retratada no filme, que espera de forma calma, apenas detrás de pequenos grãos de película e neblina em vídeo.

Trailer

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *