Borat: Fita de Cinema Seguinte

Para Mike Pence com Amor

Por Laisa Lima

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Existem filmes e filmes. Existem filmes que miram mais no entretenimento, a exemplo de franquias como “Os Vingadores” (2012 – 2019); e outros que dão um foco maior em transmitir a marca autoral do diretor – menção honrosa para obras como as de Quentin Tarantino, acentuadas por banhos de sangue e trilhas sonoras características do universo particular do artista. Todavia, algumas películas só atingem seu objetivo se colocarem o dedo em alguma ferida, algum tipo de vulnerabilidade temática, seja política, cultural, ou qualquer pauta que pudesse causar rebuliço em alguns. Porém, e se esta ferida, ainda aberta, fosse cutucada satiricamente? E se “Borat: Fita de Cinema Seguinte” (2020), de Jason Woliner, fosse novamente o responsável por isto?

Em 2006, o mundo conheceu Borat (Sacha Baron Cohen). Politicamente incorreto, controverso, atrapalhado, polêmico; todos estes adjetivos definiam não só o personagem apresentado em “Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, de Larry Charles, mas também o filme de comédia que estava inserido. Entretanto, uma segunda empreitada para alimentar (e continuar) a subversão de uma moralidade comum presente no primeiro filme, se deu em “Borat: Fita de Cinema Seguinte”. A história é a seguinte: Borat precisa levar sua filha como presente para o vice-presidente dos Estados Unidos. E é desta premissa que a obra tem seu início.

Desde o primeiro filme, Borat fez uns rirem, uns julgarem, e uns se preocuparem. Está longe de ser unanimidade o significado do “jornalista” e seu filme para a sociedade: enquanto uns podem ver as atitudes do personagem com olhos de repressão, uma parcela dos espectadores possivelmente entenderá suas peripécias como uma grande crítica ao momento em que está se vivendo atualmente. E a origem da história parte de um desejo absurdo: Borat quer dar Tutar (Maria Bakalova), sua filha, para Mike Pence. Como decorrência de tal atrocidade (vista assim por uma maioria, mas não pelo protagonista e sua respectiva “nação”), outras “imoralidades” impregnadas no senso coletivo vão ditando o possível choque do público, que se depara com uma naturalidade até de cidadãos fora de “Borat: Fita de Cinema Seguinte”, como atendentes, vendedores, etc. É de se esperar que civis – ainda mais nascidos na maior potência mundial, os Estados Unidos – lidem com os despautérios feitos e falados por Borat, com um repúdio imediato. Mas isso não acontece.

Borat é possivelmente odiado por aqueles que defendem a ética raiz, sem margem para questionamentos feitos de maneiras não convencionais. Sacha Baron Cohen, contudo, traz carisma para um personagem que é até inocente em suas convicções, já que para ele a normalidade é aquela existente em seu povoado, e nada mais. O homem em si, carrega princípios invertidos dos que são propagados em nome dos bons valores, como a valorização da mulher e das demais etnias, e faz-se intermediário entre o que é repudiado popularmente, e sua própria pessoa. Seus sentimentos apenas afloram após um tempo com Tutar – com Bakalova entregando uma personagem verdadeiramente ingênua em seus pensamentos, aprisionados pelos preceitos do pai -, mas refletindo nele a vontade da jovem de conhecer um mundo de opiniões fora das amarras de Borat.

Embora promova sérias discussões, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” é, majoritariamente, uma comédia. E ela funciona em certos pontos. A dupla principal, Sacha e Bakalova, emite uma autenticidade de quem está revertendo seus padrões naturais, mas sempre com um timing perfeito, que transita entre esta genuinidade, e um sarcasmo já pronto. O tom de documentário não participativo escolhido por Jason Woliner, com o uso de câmeras subjetivas, como se “cobrissem” o dia a dia de Borat; insere uma requerida realidade ao irreal. Algumas cenas são duvidosas quanto a sua veracidade (exemplificado com a sequência com o ex-prefeito Giuliani, tão inacreditável quanto as situações falsas criadas pelo personagem). Então, os ocorridos não teriam tanto apelo humorístico por eles mesmo, fazendo das reações de Borat, acompanhado de Tutar, os maiores motivos de distração das ocorrências questionáveis tratadas no longa-metragem.

Borat: Fita de Cinema Seguinte” mexe com preconceito, racismo, xenofobia, fake news, teorias da conspiração, covid-19 e política. É neste último contexto que contém a cena mais escandalosa (e, quem sabe, esclarecedora para os fãs de Donald Trump), do filme, e é dentro deste mesmo tópico que a película se perde ao tentar o manejar juntamente com a mensagem disseminada no final, discutível no quesito do mantimento ou não mantimento da personalidade fidedigna de Borat. No entanto, a manipulação de tantos conteúdos considerados como já aderidos em sua totalidade, como a condenação do racismo e do ódio aos judeus; mostra, por meio do símbolo do preconceito, Borat, aliado à sua falta de informação, a chocante realidade. Não tão chocante se for olhado ao redor, até porque nada de novo é passado na tela. Apesar que rir do desconhecimento de normas coletivas há tanto tempo obtidas, como o respeito ao outro, não é tão puritanamente correto assim.

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