Bom Dia Carlos

Eu só quero cagar

Por Fabricio Duque

Sim. Há duas formas de assistir uma nova obra do realizador Gurcius Gewdner. A primeira consiste em recorrer aos remédios contra enjoos, os anti-histamínicos, que bloqueiam os receptores H1 no cérebro, responsáveis pela resposta de náusea do organismo. A outra é aceitar a experiência sem nenhuma proteção estomacal. Tudo porque o objetivo incondicional de seu diretor é causar o nojo em sua potência máxima, exagerando a sinestesia com a visceralidade do sentir. Em “Bom dia, Carlos” (2015), um preâmbulo exacerbado e uma prévia “Coming” de “Pazucus: A Ilha do Desarrego”, confesso que tive a mesma sensação de mal estar quando assisti “Trash – Náusea Total” e “Fome Animal”, de Peter Jackson; “A Mosca”, de David Cronenberg; e “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, de Pier Paolo Pasolini.

Se é esse o objetivo, então o resultado foi atendido com sucesso. Assim, recorrer aos dimenidrinatos ou prometazinas da vida atrapalha drasticamente o que o público necessita sentir: asco e ojeriza da imagem projetada. Ainda que saibamos que é ficção, a sugestão pela tradução ultra realista surte o efeito de estímulo ao vomitar. “Bom dia, Carlos” é assumidamente trash, que permite desvirtuar, com aguda violência figadal, o cineasta-homenageado Carlos Reichenbach. Aqui, a intenção é esculhambar com exagero proposital os típicos gêneros de Filme B, trazendo referências icônicas de José Mojica Marins e Rodrigo Aragão para construir uma picardia moderna, com ares setentista.

Gurcius, considerado “figura folclórica do underground brasileiro”, nos conduz pela insanidade e pela catarse convulsiva- metafísica de sua personagem principal, Carlos, que sofre de prisão de ventre e faz de tudo para cagar. Uma performance de uma perturbadora dor de barriga. O tom escrachado e de humor caricato desperta no público uma viagem às gargalhadas. É tão, mas tão trash, que causa uma vertigem paralisante. E é tão, mas tão nojento, que uma das consequências, sem o remédio salvador, é compartilhar essa escatológica, histérica, paranóica e enlouquecida regurgitação.

Carlos liga para um médico em crise psicótica com o intuito de buscar ajuda em sua dor insuportável de “cocô guardado”. “Você tem que comer frutas e fibras, Carlos. Se não, você vomitará as próprias fezes”, o aconselha com sádico surrealismo. Só que Carlos também pode ser uma metáfora orgânica demais de Reichenbach. Será? Visto que “o coloca no topo da cadeia alimentar dos Carlos”. “Bom dia, Carlos” é um filme causa. O começo dos monstros fecais. Sim, é muito doido. Uma demência personificada de um dos dramas que afetam a grande parte dos seres enquanto humanos. Talvez, este filme seja também uma profecia ao tempo presente. Torna-se ainda mais factual se analisarmos o discurso atual do Presidente do Brasil, que disse: “Vamos acabar com o cocô no Brasil. O cocô é essa raça de corruptos e comunistas”.

Será que todo esse impedimento de Carlos é um simbolismo a uma nova era? Não se sabe. Nunca saberemos. Mas que o filme em questão aqui é um samba do cocô doido, ah, isso é. Ame ou odeie, com ou sem remédio, enjoando e/ou ansiando, tanto faz, o curta-metragem de dezessete minutos, que faz parte de “A Percepção do Medo”, longa sobre os medos do homem contemporâneo e sua relação com a cidade (no caso de Carlos é Florianópolis), é uma experiência única, nauseabunda e de efeito exponencialmente coprológico. Concluindo, assista duas vezes. Uma com, outra sem, anti-histamínicos, tudo pela epifania ao direito do cagar.

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