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Boa noite

A voz e o símbolo

Por Victor Faverin

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

No jornalismo, chamamos de “perfil” a reportagem que busca adentrar na vida de certo personagem. A intenção é procurar minúcias, cavar até encontrar o homem por trás da lenda, do símbolo. Exemplo pioneiro e referência desse conceito até hoje são os textos do repórter norte-americano Gay Talese, muitos deles compilados no essencial “Fama & Anonimato”, livro obrigatório em muitas faculdades de Comunicação Social. No documentário, quando o objetivo é entranhar-se no cotidiano de alguém, dá-se a isso o nome de “retrato”. É dessa forma que Clarisse Saliby apresenta sua obra de estreia, “Boa noite” (2019), que procura esmiuçar a vida de Cid Moreira e integra a Mostra Competitiva do Festival É Tudo Verdade.

O nome do filme não poderia ser mais adequado. Durante 27 anos, o apresentador fez a saudação de encontro e despedida à frente do mais importante telejornal do país a milhões de lares em uma época em que a televisão – e mais precisamente a Rede Globo – era absoluta e predominante na oferta informativa e de entretenimento dos brasileiros. O documentário, com narração do próprio Cid Moreira – difícil imaginar outra forma de condução – passeia pela infância e amor por filmes à paixão pelo rádio demonstrada pelo jornalista nos primeiros anos. Algumas curiosidades são evocadas, como a sua entrada na Rádio Difusora, onde estava apenas à procura de um estágio de contabilidade, mas teve a empostada voz descoberta logo de início.

No mais, a narrativa não traz outras descobertas ou provocações que possam defini-la como um retrato, a menos que seja um repleto de filtros. Apenas é mostrado o quê – e da maneira – que o personagem símbolo deseja que seja descoberto. Dessa forma, cabe à diretora e também roteirista do documentário apenas o papel de espectadora passiva, de aprendiz. Da mesma forma que tal direcionamento pode ter deixado de lado o entendimento, mesmo que superficial, da essência de Cid Moreira, faz com que os momentos mais desconfortáveis da vida do icônico apresentador sejam mostrados de forma natural, sem que pareça ter havido uma pergunta por trás da resposta, da reflexão, como quando discorre sobre a filha falecida, que poderia ter seguido os rumos do pai na profissão, mas que “não deu em nada”, “mesmo tendo feito dois estágios na Globo”.

Um conselho que foi dado a essa filha, aliás, reforça duas características predominantes na carreira e vida do jornalista: a seriedade e o empenho. “É preciso se dedicar 48 horas do dia em um trabalho, o que significa que você deve se aplicar em dobro”. Essa devoção é desvelada em vídeos de arquivos, quando o jornalista repetia inúmeras vezes uma frase até encontrar a entonação que ele julgava ser a melhor e, mais ainda, hoje em dia, quando ao rever tais momentos, ele desaprova os excessos modulares de outrora. Poucas coisas parecem satisfazer plenamente Cid Moreira. A principal questão que o desagrada, porém, é timidamente exposta por “Boa noite”: o assédio dos fãs, ou melhor, dos porta-vozes dos fãs, já que o público que mais o aborda são os jovens que pedem beijos, abraços e boa noites às tias e aos pais. A esses pedidos “muitas vezes absurdos”, Cid limita-se a dizer que “são chatos”. Não cabe a uma figura pública demonstrar incômodos de forma mais enérgica, afinal.

Outra deficiência de “Boa noite” é não se esforçar para descobrir a reflexão que um mensageiro da história faz do que anuncia. Afinal, através da voz do apresentador, foi noticiado a quase totalidade dos fatos mais marcantes de parte considerável do século 20. Como resposta, o jornalista apenas se diz “apolítico”. Ao contrário de William Bonner, seu substituto de bancada, Cid Moreira era apenas apresentador e não interferia na linha editorial do Jornal Nacional. “Isso é importante ressaltar”, ele diz, em certo trecho. Mas o que pensava o homem por trás do terno e à frente do logotipo do programa quando a Rede Globo se viu obrigada a transmitir o direito de resposta de Leonel Brizola frente ao editorial publicado pelo jornal O Globo, em 1992? Ou o que ele acha dos telejornais atuais, muitas vezes embasados na interatividade descontraída – e ensaiada – entre âncoras e repórteres? Nada é dito.

Por isso, ainda que se preste a fazer um retrato fiel do mais icônico apresentador do JN, “Boa noite” dá um mergulho que pouco transpassa a superfície. Fica, apenas, a busca pela técnica e da impostação perfeita de voz de um mero leitor de telepronter.

 

 

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