Bicha-Bomba

Viver é a Exceção

Por Jorge Cruz

Palavras descontextualizadas por si só não têm o mesmo poder em comparação à sua aplicação em um discurso. “Bicha-Bomba” se inicia problematizando o uso da expressão bicha para designar homossexuais do gênero masculino. O exemplo de Vera Verão, imortalizada por Jorge Lafond é emblemático, por trazer um personagem que toda a semana no humorístico A Praça é Nossa se apropriava da expressão para mostrar que era muito bem resolvida. A palavra chegou ao Festival de Berlim de 2018 quando Claudia Priscilla Kiko Goifman apresentaram Bixa Travesty que, coincidentemente, estreou no circuito comercial duas semanas antes desse curta-metragem ser levado ao Festival do Rio.

Só que a vida real não se constitui apenas de casos edificantes como o de Lafond. Até hoje milhares de pessoas morrem todos os anos por não se enquadrarem no padrão heteronormativo imposto pela sociedade. Em um país onde a judicialização da homofobia resiste às artimanhas da lei e ao desejo de manter esse status quo pelos representates do Poder Legislativo, os casos extremos de discriminação são tratados como rotina. Como o próprio pai fala em depoimento no filme, a “surra corretiva” é até hoje entendida como método – sendo indicada até mesmo por quem nos governa.

O que o curta-metragem de Renan de Cillo, produzido originalmente como Trabalho de Conclusão de Curso de sua faculdade de cinema, faz é inserir todos os elementos capazes de sensibilizar o espectador. Assim como a violência contra a mulher se origina na grande maioria dos casos nas relações domésticas, é no seio da família que os LGBTQIA+ sofrem com mais frequência. Da mesma maneira que a Lei Maria da Penha por si só não foi capaz de reduzir os casos de violência a níveis aceitáveis, a criminalização da homofobia seria um pequeno passo na caminhada de dignidade que os representantes dessa comunidade tentam conquistar. Para quem não os respeita, suas condições se sobrepõe a qualquer outra. Há quem prefira o filho criminoso ao gay – e há quem ignore o direito à vida do próprio filho, seja ele uma inocente criança.

Sendo assim, “Bicha-Bomba” nos coloca, a partir de imagens de vídeos caseiros dos anos 1990, no absurdo caso de assassinato de um filho de oito anos por entender que ele estava se comportando fora do padrão imposto. Uma narrativa que não investe na perturbação, optando por certa melancolia, como se pudéssemos na morte conseguir ouvir o que o injustiçado teria a dizer. É um grito de socorro, para que parem de matar. Se um quadro tão extremo e injustificável não for capaz de tirar o espectador da ausência de opinião ao longo seus oito minutos, nada mais relacionado ao assunto obterá esse êxito.

 

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